El-rei me mandou logo chegar para junto da camilha em que estava deitado assaz enfermo e atribulado de gota, e me disse:
- Rogo-te que te não enfades de estares junto de mim, porque folgo de te ver a falar contigo, e que me digas se sabes alguma mezinha lá dessa terra do cabo do mundo, para esta enfermidade que me tem tão aleijado, ou para o fastio, porque vai em dous meses que não posso comer cousa nenhuma.
A que respondi que eu não era médico nem aprendera essa ciência, mas que no junco em que eu viera da China, vinha um pau cuja água curava muito maiores enfermidades que aquela de que se ele queixava, e que se o tomasse teria logo saúde, sem falta nenhuma, o que ele folgou muito de ouvir. E querendo pôr em efeito curar-se com ele, o mandou buscar a Tanixumá onde o junco estava, e se curou com ele, e foi logo são em trinta dias, havendo já dous anos que daquela enfermidade estava entrevado na cama sem se poder bulir nem mandar os braços.
Vinte dias contínuos despois que cheguei a esta cidade Fuchéu, passei muito a meu gosto, ora em responder a várias perguntas que el- rei, a rainha, o príncipe e os senhores me faziam, como gente que não tinha notícia de haver mais mundo que Japão; e não me detenho em dar relacão do que me eles perguntavam e eu respondia, porque como tudo eram cousas de poucoa substância, parece-me que não servirá de mais que de encher papel com cousas que dêem mais fastio que gosto, ora em ver as suas festas, as suas casas de oracão, os seus exercícios de guerra, os seus navios de armada, e as suas pescarias e caças (a que são muito afeiçoados, principalmente às de altanaria com falções e açores ao nosso modo); e algumas vezes passava também o tempo com a minha espingarda matando muitas rolas, e pombos, e codornizes, de que a terra era bem abastada.
Os desta terra, para quem este modo de tiro de fogo foi cousa tão nova como para os de Tanixumá, vendo uma cousa que até então não tinham visto, foi tamanho o caso que fizeram disso, que o não sei encarecer. O segundo filho de el-rei, por nome Arichandono, moço de dezasseis até dezassete anos, e a quem ele era muito afeiçoado, me requereu algumas vezes que o quisesse ensinar a tirar(*), de que me eu escusei sempre, dizendo que havia mister muito tempo para o aprender. Porém ele não aceitando esta minha razão, fez queixume de mim a seu pai, o qual, pelo comprazer(**), me rogou que lhe desse um par de tiros para lhe satisfazer aquele apetite; a que respondi que dous, e quatro, e cento, e quantos sua alteza mandasse. E porque ele neste tempo estava comendo com seu pai, ficou para despois que dormisse a sesta, o qual ainda aquele dia não teve efeito porque foi aquela tarde com a rainha sua mãe a um pagode de grande romagem, onde se fazia uma festa pela saúde de el-rei.
E logo ao outro dia seguinte, que foi um sábado, véspera de Nossa Senhora das Neves, se veio pela sesta à casa onde eu estava sem trazer consigo mais que sós dous moços fidalgos, onde me achou dormindo sobre uma esteira; e vendo estar a espingarda pendurada, não me quis acordar, com propósito de tirar(*) primeiro um par de tiros, parecendo-lhe, como ele despois dizia, que naqueles que ele tomava não se entenderiam os que lhe eu prometera. E mandando a um dos moços fidalgos que fosse muito caladamente acender o morrão, tirou a espingarda donde estava, e querendo-a carregar como algumas vezes me tinha visto fazer, como não sabia a quantidade de pólvora que lhe havia de lançar, encheu o cano em comprimento de mais de dous palmos, e lhe meteu o pelouro, e a pôs no rosto e apontou para uma laranjeira que estava defronte; e pondo-lhe o fogo, quis a desaventura que arrebentou por três partes, e deu nele, e lhe fez duas feridas, uma das quais lhe decepou quase o dedo polegar da mão direita, de que o moço logo caiu no chão como morto, o que vendo os dous que com ele estavam, foram fugindo caminho do paço, e, gritando pelas ruas, iam dizendo: "A espingarda do estrangeiro matou o filho de el-rei!", a cujas vozes se levantou um tamanho tumulto na gente, que toda a cidade se fundia, acudindo com armas e grandes gritas à casa onde o pobre de mim estava, e já então qual Deus sabe, porque acordando eu com esta revolta e vendo jazer o moço no chão junto de mim, ensopado todo em sangue, sem acudir a pé nem a mão, me abracei com ele já tão desatinado e fora de mim, que não sabia onde estava. Neste tempo chegou el-rei debruçado sobre uma cadeira que quatro homens traziam aos ombros, e ele tão coado que naa trzia cor de homem vivo, e a rainha a pé, sobraçada em duas mulheres, e ambas as filhas da mesma maneira, em cabelo, cercadas de grande quantidade de senhoras e gente nobre, as quais vinham todas como pasmadas, e entrando todos na casa, e vendo jazer o moço no chão como morto e eu abraçado com ele, ensopados ambos em sangue, assentaram todos totalmente que eu o matara, e arremetendo dous dos que ali estavam, a mim, com os terçados nus nas mãos, me quiseram logo matar; porém el-rei bradou rijo, dizendo:
- Ta, ta, ta, inquiram-no primeiro, porque suspeito que vem esta cousa de mais longe, porque pode ser que peitassem este homem alguns parentes dos tredos de que o outro dia mandei fazer justiça.
E chamando então os dous moços fidalgos que se acharam ali com seu filho, os inquiriu com grandes perguntas, a que responderam que a minha espingarda o matara com uns feitiços que tinha dentro no cano, a que os circunstantes todos disseram com uma grita muito grande:
- Para que é, senhor, ouvir mais? Dê-se-lhe logo cruel morte.
Com isto, mandaram logo a grande pressa chamar o Iurubaca, que era o intérprete por quem me eu entendia com eles, que neste tempo também era fugido com medo, e o trouxeram preso diante de el-rei, e perante ele e toda a justiça lhe fizeram um preâmbulo de muitos ameaços se não falasse verdade, a que ele tremendo e chorando respondeu que ele a diria. Então fizeram logo ali vir três escrivâes e cinco algozes com terçados de ambas as mãos arrancados, e eu já neste tempo estava com as minhas atadas, e posto em joelhos diante deles. E o bonzo Asquerão Teixe, que era o presidente da justiça, com os braços arregaçados e uma gomia(***) tinta no sangue do mesmo moço na mão, me disse: - Eu te esconjuro como o filho do diabo, que és, e culpado neste crime tão grave como os habitadores da casa do fumo metidos na côncava funda do centro da terra, que aqui em voz alta que todos te ouçam, me digas qual foi a causa por que quiseste que a tua espingarda com feitiçarias matasse este inocente menino que todos tínhamos por cabelos da nossa cabeça?
A que eu por etnão não respondi palavra, por estar tão fora de mim, que ainda que me mataram, cuido que o não sentira. Porém ele com sembrante feroz e irado me tornou a dizer:
- Se não responderes a minhas perguntas, te hei por condenado à morte de sangue, e fogo, e água, e assopro de vento, para nos ares seres despedaçado como pena de ave morta que se divide em muitas partes.
E com isto me deu um grande couce para que espertasse, e me tornou a dizer:
- Fala, confessa de quem foste peitado, e quanto te deram, e como se chamam, e onde vivem.
A que eu, algum tanto já mais esperto, respondi que Deus o sabia, e a ele tomava por juiz desta causa. Ele, contudo, não contente com o tinhq feito, me fez outros muitos ameaços de novo e me pôs diante outros muitos espantos e terribilidades, em que se gastou espaço de mais de três horas, dentro nas quais prouve a Nosso Senhor que o moço tornou em si, e vendo seu pai e sua mãe junto consigo banhados em lágrimas, lhes disse que lhes pedia muito que não chorassem, nem demandassem a ninguém a sua morte, porque só ele fora a causa dea, e que eu não tinha culpa nenhuma, pelo que lhes tornava a pedir muito pelo sangue em que o viam banhado, que me mandassem logo soltar, e senão que tornaria a morrer de novo; e el-rei me mandou tirar logo as prisões com que os algozes me tinham atado.
Neste tempo chegaram quatro bonzos para o curarem, e vendo-o da maneira que estava, e com o dedo polegar pendurado, fizeram tamanho caso disto que o não sei dizer, o que ouvindo o moço, começou a dizer:
- Tirem-me esses diabos de diante, e tragam-me outros que me não digam da maneira em que estou, pois foi Deus servido que estivesse eu desta maneira.
E despedindo logo estes quatro, vieram outros, os quais se não atreveram a curar as feridas, e assim o disseram a seu pai, de que ele ficou assaz triste e desconsolado, e tomando sobre isto o parecer dos que estavam com ele, lhe aconselharam que devia de mandar chamar um bonzo por nome Teixe Andono, muito afamado entre eles, que estava então na cidade de Facatá, que era dali setenta léguas, a que o moço assim ferido, respondeu:
- Não sei que diga a esse conselho que dais a meu pai, estando eu da maneira que todos vedes, porque onde houvera já de ser curado para se me estancar o sangue, quereis que espere por um velho podre que está daqui cento e quarenta léguas de ida e de vinda, que primeiro que cá chegue se passará um mês. Desfrontai esse estrangerio e segurai-o do medo que lhe tendes posto, e despejem esta casa, que ele me curará como souber, porque antes quero que me mate um homem que tanto tem chorado por mim, como esse coitado, que o bonzo de Facatá, de 92 anos e sem vista nos olhos.
Pinto, Fernão Mendes, Peregrinacão I, Edicão cotejada com a 1.a
edicão de 1614, Leitura actualizada, introducão e anotações
de Neves Águas, Edicão comemorativa do 4.o centenário da
morte de Fernão Mendes Pinto, Publicações Europa-América,
Lisboa s.a., pp. 37-41
(*) = atirar(**) = para lhe dar prazer; para lhe agradar
(***) = arma curva, usada no Malabar