Havia na perfeição de Carminho os talentos específicos da esposa, o magistério rigoroso, a beleza renovada e atenta da amante, e também a paciência e a astúcia dos outros nunca explicados mitos femininos. De modo que o que entre eles falhou foi tão-só o sentido profético, a presciência, a profecia e a adivinhação do outro. Uma corda que de súbito se distende e põe com ele à beira do precipício. A vida que pára, paira suspensa sobre o vazio súbito e ansioso, sobre um abismo cujo fundo seus olhos não podem ver nem intuir nem imaginar. Nessa corda tensa, amarrada ao seus desespero, há um sortilégio calado e indizível. Passa por ela, como se fosse eléctrica, o íman da mesma corrente contínua que durante anos e anos sempre os atraíra um ao outro; e passa ainda aquele indissolúvel magnetismo de amor que não pode ser negado nem ofendido. Se acaso comutassem a energia que alimenta a tensão e o sustento da alma, ele ficaria reduzido ao peso de um corpo morto que se despenharia do alto do precipício, arrastando consigo a estima, as imagens íntimas, o segredo de tudo o que sempre estivera certo e seguro na sua vida em comum com Carminho.
Esforça-se por não acreditar em nada daquilo que acabava de ouvir. Mas essa suposição da sua fé não passa afinal de uma conjectura despropositada. É certo que Carminho nunca tivera por hábito brincar com os seus sentimentos. Era dotada de uma prudência sensível, em extremo honesta e calculada, que por norma nunca o magoava. Quando tinha algo de grave a dizer-lhe, a sua voz baixava de volume, perdia espessura, e toda ela ficava compungida, num desconcerto, sem dominar os gestos nem acertar com as palavras necessárias. Ela sempre sofrera mais do que o próprio pelos males nunca esclarecidos dele, pelas suas doenças frívolas e imaginárias, mesmo até pelos tormentos da sua carreira universitária, por ocasião das teses e das provas públicas. Ah, quanto lhe queria e amava a saudosa Carminho desse tempo! Como só agora o sabia!
Sente-se incrédulo e estarrecido, receando que tudo comece a ruir por dentro, como se estivesse no epicentro de um sismo, e que a própria construção da vida fosse desmoronar-se à sua volta. Está no limiar de uma grande e inaudita doença. Como de costume, secam-se-lhe de repente as mucosas da boca. Um sopro de desalento entra-lhe pelo sangue dentro. Vindos de esguicho, saltam-lhe do fundo do corpo, do interior do ossos, lá muito abaixo de todos os segmentos da pele, os suores macabros de sempre, de quando se sente à beira de perdição, os quais lhe escorrem por entre os dedos das mãos. Ei-los, são os seus demónios. Os surdos, danados, travessos, cruéis demónios da sua aflição. Acto contínuo, a arritmia enche-lhe de alvoroço (de um alvoroço alado cego demoníaco) o coração. Precisa urgentemente de tomar conta de si. Ir à cozinha, retirar um copo do escoador de louça, abrir a torneira, enchê-lo daquela água redentora que sempre tivera o condão de nele reabilitar o princípio da vida. Porque só a água pode salvar a sua natureza. Tal como ele, veio do fundo e do fim da terra, primitiva e criadora como a paixão da vida. Amá-la é amar-se em última instância, ele sabe-o. Nasceu dela, filho dessa água que brota do fundo e do fim da terra. Bebe-a para se reanimar, por saber que o seu destino continuará a viver consigo, agora mais perto da morte. Inspira, expira, várias vezes seguidas, rende-se à ilusão de que um súbito fio de acalmia parece apaziguar-lhe o frémito nervoso e confuso do coração. Mas não passa de uma ilusão. Apalpa o pulso, reconhece de imediato a sua cavalgada frenética. O bastante para que ele saia da morada da saúde para a casa imaginária das suas doenças. Saúde e doença representam nele espaços continuados, territórios sem uma fronteira definida. Previra há muito que morreria no princípio do Outono, vítima de uma sua viração, do maldito arrepio desse suspiro do tempo que há-de um dia sobre o seu corpo encrespar-se para o matar. Colapso cardíaco, quem sabe. Mas fora apenas um erro de cálculo: a meio do Inverno, o corpo passou ileso sobre as ameaças do tempo, como gato por brasas. A vida dura porque ainda se alimenta nela uma combustão, o fragor do lume lambendo, chiando, atravessando ruidosamente a sua lenha.
Quando regressa da cozinha, Carminho ainda lá está: sentada no sofá em frente da janela, como que reclinada, rendendo-se ao peso da luz da rua. Onde deixou de passar gente. E onde agora passa o vento abaulado, sacudido e quase frio do mês de Janeiro. Mil novecentos e noventa e dois. Então, ergue para ele uns olhos melancólicos e sofridos. Há, nesses olhos, o fluído de uma lágrima que não é pranto nem emoção, apenas uma dor a si mesmo contrária, contrariada, contraditória, num misto de pesar e desamor, de um sentimento quase fúnebre a respeito dele, do seu passado, do seu tempo presente de ser homem. Deve pensar que acaba de acontecer-lhe a primeira metade da morte. Ela mesma sente cobri-la o luto de uma meia-viúva. A sua dor terá por luto a saudade, a melancolia, o vinho e o remorso - precisamente tudo o que ele não quer ver subsistir para além de si. Nenhuma coisa lhe deve sobreviver para denegrir a história da sua paixão: nem dor nem luto nem saudade nem melancolia nem o vinho dos mortos. Até mesmo o remorso é coisa indigna, de todo bem contrária à memória e ao desprazer do amor.
Sobra-lhe assim, de tudo o que acaba de viver, uma dor que durará para além do sentimento. Sobra a saudade da casa e dos seus hábitos nela; pena, coita, mágoa, expiação comum. Carminho acaba de salvar aquilo que nele vogava já em direcção ao naufrágio. O vento principiava a soltar-se das usas amarras para encapelar o mar, romper a vela, espalhar em volta da casa os seus destroços. Deverá recordá-la sempre com júbilo e gratidão. Entra, deixa-se cair na primeira cadeira. Quer falar, não conhece a própria voz. Endureceu, tornou-se-lhe estranhamente espessa. E tremem- lhe as mãos com que pudesse, num impulso, prender as dela e dirigir-lhe uma súplica. Dói-lhe o peito porque a voz vacila. Não sabe se é digno ou iníquo da sua parte pedir-lhe perdão e uma segunda oportunidade, ou até sugerir-lhe uma qualquer forma de armistício conjugal, ou então simplesmente agradecer-lhe os anos da fortuna com que ela sempre amparara a sua vida. Sabe é que não deve chorar. Nunca. Além de pouco cavalheiresco, é quase certo que Carminho perderia o respeito por um homem assim amedrontado e que chorasse posto de cócoras perante si.
Vai pela última vez ao bar, enche um grande copo de uísque. Precisa de dizer alguma coisa, de dizer algo que o reconduza a uma coragem alta e vertical. A primeira é que, de facto, também a ele não parece muito digno continuarem ambos, juntos na mesma casa. As casas só fazem sentido quando nelas há um movimento comum. Tudo aliás fora nela posto para isso. Os quadros, os espelhos, os móveis, os livros. Dali em diante, a casa não seria mais uma casa, nem a cama seria uma cama, nem a mesa uma mesa. Tudo passaria a ser a casa de antes e a outra casa de depois. Quererá dizer-lhe que não leva nada, absolutamente nada consigo, sabendo embora que por causa disso Carminho pensará dele o pior. "Não levar nada, Carminho, significa apenas o projecto de desaparecer, de me saber extinto, de deixar de existir". Como se o fossem cremar. Ir-se embora, sim, como ela sugeriu, mas sem a intenção de voltar seja pelo que for - o correio, as mensagens telefónicas, os livros, a vida. Extinguir-se em Lisboa, só isso. Na única cidade do mundo onde a ninguém é permitido perder-se nem regressar às suas origens. Mas onde todos buscam sempre, de forma continuada, como se apenas quisessem equilibrar-se à beira do abismo, o vinho do amor e do esquecimento. Não fica para trás um único pretexto para um futuro e presumível regresso a casa. Leva tudo o que nele deixou de pertencer a Carminho. Leva toda a sua vida.
- Claro que compreendo, Carminho: uma paragem, pois claro. Perfeitamente! - diz ele. - Uma paragem. Está certo. - E de novo o suor a esguichar por entre os dedos, e as tremuras na ponta dos dedos, e o calor que parece dilatar-lhe o coração em fúria. Sente-se mal, está muito doente, mas não o dará a entender a Carminho. Um homem não pode nunca separar-se da sua inteligência. Nem da sua honra. Nem do seu nome. Nem da sua sombra. Nem das suas esparsas e inconfessáveis misérias. Chama-se a isso decência. Elevação, consciência. Educação, intimidade.
Todavia o que vai dentro de si é como um grito e um sufoco. Um grito de protesto e indignação, um sufoco de misericórdia e de comiseração ou pena a seu respeito. Pudesse ela chorar, dir-lhe-ia agora tudo o que sempre se esqueceu de lhe dizer chorando. Se pudesse enlouquecer, rir-se-ia alto, correria de braços erguidos pela casa fora, aos gritos, tenebroso perdido alucinado, protestando amá-la mais do que à própria vida. Sair de casa, expulso por ela, eis o infinito absurdo o ridículo o dado precioso e inexplicável da sua tragédia. Em vez do corpo de um homem vivo, sairão daqui para a morgue a chama o fogo e a cinza do seu espírito. A sua natureza. O reino a que pertence, também. Como ela muito bem sabe, como ela sempre soube, como ela nunca deixará de saber.
Melo, João de, O Homem Suspenso, Publicações Dom Quixote, Lisboa 1996, pp. 73-78