Eduardo Bettencourt Pinto

Balada ao pai


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 Às cinco da manhã oiço bater à porta, toques insistentes aflitos. Acudo, sobressaltado.  É a mãe. O pai está caído à porta da casa do banho, incoerente, diz morta de susto. O coração bate-me acelerado enquanto desço a escada. Nesse domingo, 16 de Junho, é o Dia do Pai.

O "Velho", sentado no chão, tem os braços estendidos para os lados tentando manter o equilíbrio. Está muito perturbado, sem  óculos, caídos no quarto de banho. Balbucia algo que não entendo. Que fazer? Falo com ele. Confuso, não responde. Tento não entrar em pânico, um nó na garganta. Acaricio-lhe a cabeça, a mão tremente. É duro vê-lo assim, reminiscência dum homem forte, alto, eternamente bronzeado pelo sol angolano, que me carregou ao colo nas infinitas tardes de África, aos meus irmãos. Esta súbita vulnerabilidade traz-me uma agonia nunca experimentada. Tento levantá-lo. O corpo, inerte, pesa como uma montanha de melancolia. Não posso desistir. Insisto. Arrasto-o como posso até  à cadeira. Mais uma trombose, penso. Telefonamos  à ambulância. Meia hora depois vêm buscá-lo.

Ficaria hospitalizado mais de um mês. As duas primeiras semanas passou-as no segundo andar do edifício central, um quarto amplo que compartilhava com mais três pacientes, idosos.

O Frank, recentemente enviuvado, relatava-nos os últimos progressos de meu pai, diminuído com os malefícios da trombose no cérebro que mitigaram a visão, o equilíbrio e a memória.

Os outros enfermos, abstractos, encolhiam-se nas suas enfermidades; um, de respiração irregular, com um tubo na boca, olhos mortiços de basalto, encovados, a vida por um fio; outro, sentado numa cadeira de rodas, olhava para a janela numa taciturnidade eterna. Aqui, o coração adoecia com a calamidade alheia. Para colmatar essa angústia, tentava conversar com eles, falhar-lhes do sol, de coisas que pudessem tocar com os sentimentos. Os corpos, atraiçoando seus espíritos, aprisionados numa passividade regressiva, imóbil desventurança.

Com alguma força recuperada, o pai foi transferido para um centro de reabilitação, anexo ao hospital. Reaprender o mecanismo do corpo, sem a ajuda do cérebro, é algo que a medicina moderna não conseguiu ainda solucionar. Assim, as mais elementares necessidades da pessoa tornam-na num ser cuja dependência nos outros a diminui e abstraliza da si própria, sem autonomia consome-se na sua sombra.

"Sento-me aqui e escuto o que está dentro da minha cabeça."

"Na sua cabeça?"

"Esta velha cabeça aqui mesmo."

"Ouve vozes?"

"Pensamentos, Velda. Tenho muitos pensamentos. Mais do que posso imaginar. Como se fosse uma grande biblioteca cheia de livros (...) E todos fascinantes."

MacDonald Harris

Quando um homem começa a esquecer-se de si mesmo, tudo são ruínas. Os passos tornam-se de súbito pesados e lentos, alquebrados. As cataratas, mesmo operadas, começam a mostrar um mundo desfocado, cheio de silhuetas, inidentificáveis formas. A audição , como um eco eternamente fechado entre muros, obriga o cérebro a interpretar "estamos a chegar à montanha" por "estarmos a chegar a Espanha?". Irrita-o a impaciência dos outros, cansa-o a velhice, o irreversível declínio físico. Nessa espécie de segunda infância os sonhos caem, invisíveis, à sua volta. Então senta-se na cadeira e pede um cobertor. Assim fica, enredado em cogitações, as pernas tapadas, melhor diria, a pele sobre os ossos: os músculos definharam-se; os tendões, frágeis lianas, sustentam seus precários movimentos. Fraco, o sangue não suporta estas temperaturas outonais: pede luvas de lã, um barrete, pantufas acolchoadas. Ouve, de Júlio Iglésias, Por amor de una mujer.

O leitor de cassetes, numa estante cheia de livros, tem o volume altíssimo. De vez em quanto vai  à janela. Lá está a macieira que ajudou a plantar, a outra que morreu este Verão, as tímidas hastes das videiras sobre a relva. Fixa-se nos pinheiros, altos, nos cedros ladeando o muro que dá para a piscina do vizinho. Novamente sentado, o seu mutismo transmite uma nostalgia enigmática escondida no sorriso. De tanto ter sido e andado, agora reduz-se a um silêncio ao fundo do quarto, amargo e distante, curioso. Espera o sol da manhã. Para que lhe aqueça a cadeira, os ralos cabelos brancos, o olhar triste e molhado.

Não há nada mais terno e gratificante do que ver alegria nos outros. A do pai era a da contemplação - escrevo no passado pois quase não vê; consequentemente, os hábitos, devido  às limitações físicas, mudaram. Sentava-se no banco à entrada da casa e ali ficava, olhando. Pela Primavera um casal de pássaros regressa ao ninho numa trepadeira que corre por toda a parte da frente ao nível do primeiro andar. Em voos rápidos passavam-lhe pela cabeça. Esse pequeno evento diário, à distância, parecia um quadro vivo e poético de Renoir, que reverberava com o estridente trilo das novas crias. Em Maio, quando o jardim explodia em cores, hipnotizado bebia a vividez dos vermelhos, lilases, densos amarelos. Levantava-se, segurava na bengala e andava, pela frescura da manhã, solto pelo jardim como uma brisa num extasiamento sereno, tocando folhas e pétalas. Outras vezes ansiava por ver gente e ia até ao centro comercial, a pé. Gostava de andar, hábito que nunca largou desde a infância, por terras de Verride e Montemor-O-Velho; mais tarde, em África, nas grandes fazendas de café do Sul, antes de se dedicar definitivamente ao Ensino. Dava as suas voltas, dizia. Sentava-se depois num pequeno café para o cujo e um muffin. Ao voltar a casa parava na caixa do correio e trazia as cartas num saco de plástico pois temia perdê-las. Em dias chuvosos lia muito, apontando as letras com uma lupa, debruçado sobre jornais, livros, o guia de televisão.

O frio nocturno começa aos poucos a transformar a Natureza. Daqui a semanas as  árvores estarão nuas, ver-se-ão menos pessoas nas ruas. Entediado com a sonata do Outono, será mais uma passagem desagradável pelo seu corpo, agora tão estranho para ele mesmo. Será que a velhice e a doença se nos apresentam como veículos  à introspecção, nos prepararmos para uma vivência ulterior, espiritual? Seja o que for, dói.

Como redescobrir em ti, pai, todos os dias que se foram? Aquele que, sentado na cadeira vermelha da varanda africana, saturado com o calor, aspirava o ar dos mamoeiros, das figueiras, algumas cabeças de malagueta na mão, acabados de apanhar? Nesse tempo, quando a vida era eterna, a ausência não era mais que duas lágrimas que de vez em quando afastava com a palma das mãos. Agora, desterrado nos pensamentos, oiço no teu respirar os limites da paciência. A luz tímida duma vela de renúncias poisa-te nos olhos - nem já te permitem fazer a barba. Ausente na ablepsia da penumbra, em que jardins etéreos colhes os ladílios brancos da tua solidão?


Pinto, Eduardo Bettencourt, Crónica/Circunstâncias, Portuguese Times, New Bedford, Quinta-feira, 10 de Outubro de 1996, p. 22


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