Jorge de Sena

O físico prodigioso


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Era alta noite quando, na sala invadida pela multidão das donzelas, que em vão os físicos e o capelão tinham procurado conter, Dona Urraca ficou estendida ao lado dele, exposta aos olhos de todos, respirando tranquilamente, no sono em que tornara à sua quentura natural. Ele vestira-se então, e saíra da câmara sem ser visto. No grande salão vazio, onde ecoavam apenas os murmúrios que da câmara vinham, ele encostou-se a uma fresta, olhando a noite escura. Tinham-se esquecido dele. Afinal era um homem que comia e dormia, como toda a gente, e que ganhava a vida como toda a gente que não tinha castelo ou comércio. Porque o seu comércio era o do seu poder. Mas deviam pagar-lhe o sangue que tinha dado. Sentia uma grande fraqueza nas pernas, nos braços, onde a ferida do sangradouro era uma pequena bostela escura no recôncavo do braço direito. Pousou o braço no peitoril da fresta e olhou com aborrecimento a ferida seca. Como começara tudo aquilo? Porque havia assim de ganhar a vida, pelo mundo fora, dando o seu sangue, o seu precioso sangue rubro, espesso, e ao mesmo tempo tão líquido, a homens e mulheres que sofriam nem sabia de quê? Quantas vezes já isto acontecera? Muitas. Desde que ficara só e partira, muitas. Homens velhos e novos, mulheres casadas, solteiras e viúvas, crianças e adolescentes, haviam-se banhado, no fluido do seu sangue, para recuperarem a vida e a saúde. E, de súbito, perguntou-se: que seria deles: viveriam longamente, como viveriam? Porque ele partia pouco tempo depois, e nunca mais vira nem soubera de nenhum. De súbito, lembrou-se que não fizera as recomendações devidas acerca da água do banho. Estremeceu. Já de uma vez aquela água lhe ia custando a vida, se não se escapara prontamente. Os guardas, o bispo, os teólogos, os inquisidores, os físicos, a mulher gritando e sendo benzida, a velha dizendo que o vira esquartejar o recém-nascido e comer-lhe as mãozinhas, e a forca e a fogueira preparadas na praça, e o duque dando a ordem, e ele subindo as escadas, e de repente invisível no meio daquilo tudo, quando o carrasco lhe pusera o gorro que um guarda trouxera, correndo, pois que o gorro devia ser queimado com ele. Porque a água ficara fétida e negra, e a tinham levado em jarros, ao bispo, a parteira e o síndico. Assegurou-se cautelosamente de que ainda estava invisível (o que podia saber observando se, pondo as mãos uma sobre a outra, continuava vendo as duas), e voltou à câmara de Dona Urraca, entreabrindo devagar a porta. Não estava ninguém. Apenas as candeias de cera, no oratório, iluminavam escassamente o ar pesado que cheirava... sim... um pouco como as águas de banho seu. Aspirou de leve o cheiro, e viu as deusas sobre ele no sonho. Era afinal um cheiro estranho, mas não era um cheiro mau; e atraía-o para o leito em que Dona Urraca dormia. De novo, porém, as lembranças terríveis lhe surgiram, impelido pelas quais atravessou a câmara e empurrou a porta da sala contígua, onde fora o banho. Ao clarão dos brandões, três cabeças emergiam da celha a meio da quadra. Aproximou-se mais para distingui-las. E viu que eram dos dois físicos e do capelão, tomando semicúpio.

Não conteve uma gargalhada, que os fez levantarem-se tiritantes, os dois físicos muito magros, o capelão com a gordura ondulando trémula. A figura deles excitou-lhe mais o riso. E os três, saltando trôpegos para fora, numa aflição em que se benziam apavorados, agarravam nas roupas atiradas para o chão e fugiam correndo por uma das portas ao fundo. Seguiu-os até lá. E ainda os viu de escantilhão por uma escura escada abaixo que, pelo cheiro a queimado e a comidas, que dela vinha, conduzia às cozinhas do castelo. Voltou então para junto da celha, e debruçou-se nela. A água estava quieta e escura, lisa como um espelho. Por mais que aspirasse, a nada lhe cheirou. Mas viu-se reflectido nela. Foi com ternura que se observou, numa carinhosa piedade por si mesmo. Para os espelhos nunca era invisível e, diante dos espelhos, achava-se belo e triste, solitário e pobre, sem nada nem ninguém, tendo apenas por companhia a sua imagem. E era por isso que tanto gostava de banhar-se nos rios, como se mergulhar neles e agitar-se nas águas fosse a maneira de unir-se àquela imagem fascinante que nunca, senão assim quebrada por ele mesmo, era invisível e unida a ele. Que sucederia se também ele entrasse no seu próprio banho de sangue? Confusamente o sabia, na sua mesma carne que tremeu. Sairia dali velho e mirrado, cego e surdo, sem outra voz que um crocitar de corvo. Então, sorvendo bem a saliva e pigarreando forte, escarrou na água. Esta ferveu num torvelinho, começou a fumegar violentamente, em nuvens de vapor, e desceu rapidamente até ser só, no fundo da celha, umas bostelas secas, iguais às que se lhe formavam no braço. Uma pequena dor aguda lhe vibrou pelo braço acima, em que, com algum espanto, verificou que não havia sinais do sangradouro. Tornou a cuspir na celha. E foi a vez de as bostelas se desfazerem. E os vapores que pairavam no ar desceram a condensar-se na celha que, pouco a pouco, ficou cheia de novo, mas de uma água límpida e transparente, puríssima, em que a sua imagem lhe sorria.

Respirou profundamente, num grande e fundo alívio, e voltou à câmara de Dona Urraca. Quando entrou, sentiu no ar uma agitação. E era ela que, com os braços estendidos, como cega, andava às corridinhas de um lado para o outro, numa nudez que brilhava, agarrando o vazio com os dedos longos. Retendo a respiração, encostou-se à parede e esperou. Agora, ela vinha vindo, como se esperasse que ele estivesse pendurado qual tapeçaria. A mão dela encontrou-lhe o ombro, que apalpou cravando-lhe as unhas. E logo o outro braço lhe rodeou a cabeça, puxando-lha para os lábios entreabertos que gorgolejavam saliva. Toda ela se lhe colou violentamente, esfregando-se contra ele. E, sentindo-se sorvido por beijos calcados e intermitentes, ouviu que ela lhe dizia rouca: - Assim, assim, quero-te assim invisível. Vem. E ele, cujo corpo era todo uma tensão que estourava, segurando o gorro para que lhe não caísse, deixou-se despir por aquelas mãos que todo o percorriam, sem deixarem recanto que não perscrutassem com dedos interrogativos, para o que ela se abaixava e levantava em volta dele, beijando-o por toda a parte; e, cerrando os olhos, deixou-se ser levado para o leito onde, invisível o corpo mas não o prazer que sentia, perdeu de todo a virgindade.


Sena, Jorge de, O físico prodigioso, Obras de Jorge de Sena, 5 edição, ASA Literatura, Lisboa 1995, pp. 36-40


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