Onésimo Teotónio de Almeida

Universidade de táxi


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Lá para as bandas dos verões eternos do sul da Flórida, um amigo meu, que vive da esperança que as velhinhas trajando jovem têm na gerontologia, gosta de contar uma história por cuja autenticidade ele bate pé ao som de palavra de honra. Um canalizador ter-lhe-ia ido a casa para um desses ápices de serviço. Chega o momento da conta e ela vem gorda e pesada. O Dan relaciona o preço com os minutos, conclui ser exorbitância e, para reclamar com um pouco de estilo que a classe lhe exigia, comenta com sorriso programado:

- Bom, eu creio que vou deixar de ser médico e começar a trabalhar como canalizador.

Fleumático e com ares de quem não viu graça no comentário, riposta-lhe o homem:

- E o que é que você pensa que eu fiz?!

Ouvi-lhe a história umas quantas de vezes e sugeri-lhe que se non è vero, è bene trovato, mas ele que não! Ou que sim, aliás. Verdadinha. E a dúvida persistiu-me até um dia destes quando, também um canalizador, me vem a casa fazer um orçamento para um serviço por ele calculado para quatro horas e me pede 480 dólares. Eu não plagiei o meu amigo, nem mesmo lhe repeti a história. Mas frase aqui, graça acolá, vira-se-me ele às tantas:

- Sabe? O meu sonho foi sempre ser médico.

Pausou. E sem eu engatar, continuou:

- Já me arrependi porque não fui. Ganhava menos dinheiro, mas ao menos os horários eram melhores.

Também não garanto a originalidade. O folclore americano gosta de entrar com os médicos porque as estatísticas dão-lhes a palma na média dos salários. A proliferação dos canudos não significou inflação em todos os ramos e, que eu saiba, até à data deixou os médicos sãos. Na indústria e nos negócios, sobretudo, é que se proletarizou o estatuto social. Mas não os ordenados.

O Jõe, por exemplo, foi fazer vingar os suores frios do seu doutoramento em Química com bons milhares de dólares por ano que os Bell Laboratories lhe deram para, anónimo entre mais de três mil doutorados, no seu canto do laboratório com equipamento de só pedir por boca, pôr a brincar os miolos fresquinhos da tese até parir um invento, pois as estatísticas dizem que ele nasce (em regra pelo menos um) logo a seguir à gravidez da tese. Depois é burocratizar o tipo aos poucos. O Jõe já deu à luz o seu brinquedo que vai economizar milhões aos Bell Labs, e eles migalharam-lhe mais grossa quantia por ano.

Isso na tecnologia. Em letras e humanidades, foi o salário que também se proletarizou. Quando o emprego existe, claro! E também há, evidentemente, o subemprego.

Sobre ele, a melhor da minha colecção é a de um jornalista free- lance (que muitas vezes significa "a dias") Convidado pela coluna de autor rotativo de uma revista, aproveitou para falar do drama psicológico da sobrepreparação universitária de tanta gente vegetando frustrada em trabalhos rotineiros muito abaixo das suas possibilidades, que muitas vezes nem escola exigem. Pregava ele a necessidade de se ser criativo. E dava o primeiro passo propondo a criação de uma companhia de táxis cujos condutores seriam todos recrutados de entre os desempregados dos mais diversos ramos das letras, artes e humanidades e demais supérfluos de espírito. Vai uma senhora precisa de um táxi pra ir do sul ao norte de Boston e é só telefonar:

- Está lá?! Preciso de um condutor especialista na influência dos factores rítmicos nos elementos metafóricos dos sonetos de Shakespeare.

Instruía-se a senhora. O condutor sentiria que afinal não perdera o cabelo em vão. Lucrava a cultura. Enfim, uma universidade de rodas, uma festa, tudo bem, tudo feliz.

O jornalista só não dizia como proceder se por acaso o frustrado professor se entusiasmasse na prelecção e continuasse viagem Nova Inglaterra fora até ao Canadá, sem campainha para dar por finda a aula, e a senhora fosse pessoa de dormir sem ressonar.


Almeida, Onésimo Teotónio, Que nome é esse, ó Nézimo? E outros advérbios de dúvida, Colecção Garajau, Edições Salamandra, Lisboa 1994, pp. 35-37


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