Fernando Namora

Uma mulher afogada


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Um aldeão veio dos lados da serra da Senhora do Circo e falou do acontecimento do seu povo: aparecera uma mulher afogada e o regedor insistia na presença das autoridades da vila.

Naquele dia o subdelegado de Saúde estava doente; olhou de longe essa caminhada por veredas do Diabo e pediu-me que o substituísse.

A aldeia era no cabo do mundo, quase no pico da serra escalvada, no sítio da romaria da santa. A gente, de longe, via a montanha nua e cinzenta, sem árvores, sem mato, e parecia-nos miragem que alguém ainda vivesse nessas terras malfadadas. Acompanhei até lá o funcionário da Justiça. O aldeão sentou-se à beirinha do assento e apoiou-se nas costas do motorista quando o automóvel arrancou. Ia desnorteado pela velocidade do carro, estendia os olhos e o pescoço para não confundir caminhos nessa mistura alucinada de árvores que fugiam com a estrada. Ele conhecia cada palmo da serra, mas conhecia-a de coração e olhos serenos, a passou ou do alto do lombo dos jumentos. Foi por isso que só avisou no último momento, apertando deseperadamente o braço do motorista: "É aqui!"

Este "aqui" traduzia apenas que não podíamos contar com o carro para o resto da marcha. Dali para cima eram uns atalhos de areia desviando-se das fragas, onde nos espreitavam bandos de gafanhotos da cor da terra ressequida. O automóvel parou à sombra de um carvalho. Apeei-me com o funcionário, e ficámos a gozar a perturbação do camponês, que se esforçava por decifrar o mistério do fecho da porta. Sentíamo-nos muito envaidecidos do nosso papel. Éramos a lei: a lei que tinha um poder ilimitado, na vila ou na aldeola mais gentia, e que pela primeira vez, sob o capuz da minha profissão, me impunha uma dignidade oficial.

Começámos a subida. Às vezes, entre as rochas que iam do azul-cinzento ao verde-negro, surgiam milagrosas courelas de sementeira, com umas espigas ralas, a roçar o chão. O funcionário, lavrador de umas várzeas, coçou o nariz e disse:

- Maus sítios.

O camponês fez-se sombrio.

São, sim senhor. O nosso povo é um povo maldito. E o mar de água que há nas terras do vale, lá em baixo, por onde passámos com o automóvel! Não sei que cisma deu nos homens antigos para assentarem um povo nestes cerros, deixando a água e o verde perderem-se lá no fundo. Foi praga. Aos senhores é que vai custar a ladeira...

- O pior é o calor - disse eu, embora deliciado com a rudeza da paisagem e com a perspectiva de representar um papel dominante enter os aldeões embasbacados. Mas lembrei-me de que os meus vinte e três anos me desacreditavam junto da desconfiança dos campónios e ensaiei por isso um jogo de rugas que disfarçasse a minha juventude. Foi pensando nisso tudo que fiz uma pergunta brusca e intencional:

- Era nova, a mulher?

- À roda dos quarenta - availou o aldeão.

- Vivia só? - insisti, trocando olhares detectivescos com o funcionário com o funcionário. Este, à minha primeira inquirição, aprestou-se com um cigarro.

- Saiba o Sr. Doutro que morava com a irmã. A irmã casada.

O funcionário reacendeu o cigarro sem necessidade. Pareceu-me que dava uma subtil importância à chama do isqueiro como preparação do interrogatório. Também ele se sentia feliz por dispor dos receios ou das lamúrias dos camponeses; também ele precisava de justificar a sua posição de representante da autoridade.

- Eram amigas?

O homem não respondeu logo. Escondeu os olhos nas pálpebras cheias, tossiu, fechou-se como um caracol.

- Eram amigas? Diga!

- Saiba o senhor que eram. A mulher caiu no poço, não há que ver. Aquilo foi buscar um balde de água, escorregou e pronto... Devia estar enterrada a estas horas se não fossem as parvoeiras do regedor.

- Ninguém falou em suicídio, não...? - intervim novamente.

- Ná!

A face do homem exprimiu um espanto convincente. O funcionário deu-me uma palmada nas costas, com uma súbita intimidade, e chegou a boca e o bafo avinhado ao meu ouvido:

- São uns manhosos, doutor... Mas nós vamos espremê-los!

Estávamos a meia encosta. Os olhos desembaraçavam-se das colinas tristes, abrangendo agora toda a planície da vila. As terras gemiam água, rios ondeavam entre choupos. Era um estonteamento de cor e fertilidade. A vila, lá longe, exibia com garridice os seus prédios claros, de telhados vermelhos.

Este contraste fazia-me meditar na teimosia rude do povo que nos esperava no cimo da serra, que não desistia de lutar com uma terra magra, vivendo num poiso de águias, bisonho e bravio, em face da gente sociável da planura. Os serranos apareciam na vila uma vez por outra: às feiras, ao comércio, ao médico. Neste último caso, os meus colegas mais sabidos cediam mutuamente a honra da escolha; ninguém desejava atormentar os rins galgando as fragas. Eu era o mais novo e aceitava alvoroçodamente esses serviços. Quanto mais penosa fosse a viagem, mais sentia a minha profissão digna de ser servida. Invejava os que tinham os dias absorvidos pela clínica, que chegavam já extenuados junto dos doentes. Da primeira vez que fui à serra, a meio da viagem interminável e como resposta à minha insistência em saber "se ainda faltava muito", o meu companheiro disse: "Nem somos gente, a bem dizer, Sr. Doutor. Estes caminhos foram feitos só para bestas como nós. Uma pessoa de estimação, como um doutor, nunca devia atrever-se a subir aqui! Deviam deixar morrer este povo, deixar que a semente acabasse." Não me queixei mais o resto da jornada e respondi com melindre: "Sou médico. Um médico é um médico; não escolhe doentes nem caminhos."

Desta vez, a subida, apesar de feita à custa das minhas pernas, sabia-me de outro modo. Enternecia-me. A paisagem lenta e descarnada sugeria-me os planaltos acidentados da aldeia da minha infância, com os moinhos de vento assentes em urzes. Compreendia agora melhor a teima dos camponeses, a euforia da montanha, o sabor da luta com a natureza áspera.

O funcionário atalhou as minhas divagações. Queria saber como nós, médicos, poderíamos destrinçar um afogado duma outra morte. Ele tinha suspeitas, tinha um plano, certamente, o seu carão abespinhado era de mau agoiro para o sossego dos aldões. Aproveitei a pergunta para lhe descrever, com pormenores tenebrosos, a paisagem duma sala anatómica; diverti-me com a sua expressão enjoada, exagerei quanto pude. Não me deixou levar a lição ao fim. Nós, médicos, éramos uns porcalhões, uns tipos endurecidos. Gostávamos de remexer em imundícies. Ele, não, tinha pavor dos mortos.

O camponês estava ali junto de nós, lívido, a boca pasmada. O seu pescoço esticava de curiosidade, com os tendões a furar a pele. Para desfazer os restos de proa do meu companheiro, pintei o horror de um afogado que me haviam distribuído, para estudo, na Faculdade. Carnes dum verde limoso ensebadas numa gordura abjecta, os cabelos empastados em areia, os olhos comidos pelos peixes. E mutilado das pernas. Um coto de carne ludra, em cima duma mesa anatómica. O funcionário sentou-se, nauseado. O aldeão tinha a boca a exsudar saliva, os olhos parados. Eu conquistara para sempre a sua aterrorizada admiração.

O funcionário da Justiça limpou o suor com o lenço, fazendo vincos na testa, e observou:

- É dura, a medicina! E depois dum trabalho desses, doutor, de volta com sebentices, têm de se sujeitar à pasmaceira das aldeias! Não, não era vida que eu escolhesse.

O camponês espevitou-nos no último arranco. E disse, por fim:

- Chegámos. É ali.

Um muro baixo, de pedra solta, uma figueira amarelenta que escondia um grupo lúgubre de curiosos. Quando nos aproximámos, os homens tiraram o chapéu, fechando-se num quadrado defensivo, as mulheres suspenderam as lamentações. O cadáver, ao lado do poço, fora coberto com uma manta. Destapei o rosto da afogada; formigas, às centenas, corriam-lhe a pele, gulosas de morte. As mulheres coaram os olhos e desta vez a sua dor tinha uma voz visceral, era a adesão da própria carne. As roupas, cingidas ao corpo, escorriam água. Não havia sinais de violência. Repeti a minha observação, contemporizando com a cobiça dos assistentes porque eu próprio me sentia, perante esses labregos atemorizados, uma espécie de feiticeiro medieval...

O funcionário puxou-me pela manga do casaco e acompanhei-o nas investigações policiais. Ele estivera à beira do poço, decifrando as águas verdes, enquanto eu observava o cadáver. O poço tinha uma escadaria até ao nível da água, folhas de alface boiavam à superfície. Os camponeses apreciavam de longe o mistério das nossas pesquisas. Os corpos vergavam-se-lhes de estranhos receios, como se de nós dependesse a vida e amorte, o destino do seu povo. Eles, que na sua maioria eram estranhos à mulher afogada, reconheciam-se agora colectivamente responsáveis perante nós dois, aperaltados da vila, dessa vila que dispunha das terras, dos direitos de posse, das décimas e dos castigos.

O camponês que nos acompanhara foi mais resoluto. Inclinou-se sobre as águas, meditou e disse:

- Estão ver a alface... Ela tinha vindo da courela com um braçado de folhas. É o que parece... Sim, veio aqui lavá-las, escorregou nas escadas... Não é o que parece, Sr. Doutor?

Era em mim que esperava protecção. O funcionário interrompeu com um gesto desabrido. Não se convencia com palavras. Aquele caso devia ter uma nódoa, era preciso que tivesse uma nódoa, um pretexto para falarmos de crime. Que oportunidade para se salientar na vila! Ricaços e doutores não desdenhariam mais a sua companhia.

- E quem a encontrou?

O aldeão não teve uma resposta pronta. Os seus olhos suplicaram-me uma ajuda: eu continuava a ser, para ele, o mago que desventrava cadáveres.

- Isso é um caso bem claro, ó Rocha! - acudi, realmente enfastiado com as pretensões ridículas do meu companheiro. - Para que complica você um simples desastre?

- Pode ser que tenha razão. As alfaces é que estragam tudo. Parece que estão ali de propósito para nos obrigar a pensar que não houve crime. Tenho lido muita coisa, doutor... Eu entendo que devíamos apertar mais estes labregos. Que dirá o juiz se o mundo começar com suspeitas? A responsabilidade é minha, bem vê. Vou fazer aqui uma provazinha.

Os seus olhos riram de prazer. Estava muito satisfeito com o seu plano. Começou a chamar os camponeses, dispô-los em volta do poço, como numa parada, e berrou: - Quem foi, de vocês, que atirou com as alfaces para dentro do poço?

Tremia de indignação com o silêncio assustado à sua volta.

- Quem foi?! - E para mim, enxugando a testa: - São uns malandros. Não confessam. É o que eu lhe dizia.

Uma das mulheres enfiou-se entre o grupo e tocou-me no ombro.

- Eu sou aquela que na semana passada levou uma criança à consulta, Sr. Doutor... - E como se esse facto me impusesse obrigações, acrescentou: - Podemos levar o corpo pra riba, prepará-lo para o enterro?

Ia a consentir, mas o meu companheiro estava desesperado. A sua glória espatia-se na obstinação daquela gente.

- Espere, doutor, espere, não seja apressado. Já lhe disse que a responsabilidade é minha. Eu é que sou a autoridade.

- Que lhe faça proveito, Sr. Detective...

Afastei-me e reparei então numa velha encostada ao tronco da figueira. Lembrava um pássaro engelhado, seco, um pássaro de luto. Alguém, pegando-lhe pelo braço, a levara, entretanto, para junto do corpo, que outro assistente acorrera a destapar. A velha curvou mais o dorso aleijado dos anos e olho o cadáver com um misto de amor e surpresa.

- A minha pombinha.

A mulher explicou:

- É a mãe.

E vi o funcionário aproximar-se sem ruído, com passos de ladrão. Ele tinha dado pela interferência da velha bruxa, e interrompera os seus interrogatórios como se esta cena fosse uma pista inesperada e decisiva na descoberta do crime. Abanou os ombros da velha e gritou:

- Por que razão a matou?!

Era o cúmulo. Os camponeses deram umas passadas firmes na nossa direcção.

- Deixe esta gente em paz. Já os apoquentámos bastante.

O aldeão que nos acompanhara tomou as minhas palavras como uma ordem indirecta e voltou-se para o mulherio:

- Vamos enterrar a pobre. Os senhores ainda precisarão de mim?

- Vá à sua vida.

O Rocha estava murcho e teve um repente histérico:

- Então levo a velha presa! Preciso de prender alguém.

Os camponeses fecharam o cerco, as suas faces estavam rígidas. Haviam perdido o medo. Eram, finalmente, senhores da sua força. O Rocha compreendeu o perigo e desorientou-se.

- Diga-lhes alguma coisa, Sr. Doutor. Sou amigo deles. Mas aqui represento a Justiça. Eles devem compreender.

Fomos descendo a serra, acossados como gatunos.

- Hei-de voltar, doutor; hei-de voltar com uma força da guarda. Bandidos! Ameaçaram a Justiça! Está provado que houve crime.

- Deixe-se disso. Os crimes não se arranjam só porque os amadores como você assim o querem. Que crime poderia ali haver? Quer um conselho, Rocha? Não pense mais neste caso. Senão, um dia apanham-no na vila e dão cabo de si. Há ocasiões para tudo.

- Acha que eles seriam capazes?

- Serão capazes de tudo quando souberem que poderão fazê-lo. Nós temos acumulado muito ódio à nossa volta. É uma seara que vai germinando.

- Olha que gaita esta, doutor! Para a outra vez, venha o juiz; não lhe parece?

- Pois... - terminei eu, sorrindo.

Demorei a descida da serra, enchendo o peito com o ar vigoroso da montanha. Quando chegámos ao vale, onde o motorista dormitava sobre o volante do carro, senti a minha vida de novo enredada de limites. As serras apertavam-me de todos os lados, fazendo do vale um poço tolhido de muros e de limos.

"Uma mulher afogada", Retalhos da vida de um médico, Primeira série, Livraria Bertrand, 20.a edição (131.o milhar), Lisboa 1978, pp. 31-41


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