Jorge de Sena

Minha tia-avó...


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Minha tia-avó, Virgínia Sena Pereira, irmã de meu avô paterno, vivia nos Açores, onde casou, já viúva, com o cônsul americano, que acompanhou a Boston, de onde ele era, e onde viveu muitos anos. Viúva segunda vez, partiu para Lisboa, onde a filha única do primeiro casamento casara com um primo direito de meu pai e dela. Viúva, sem filhos, esta prima de meu pai, que era homónima da mãe, foi viver com esta. Um filho, o único, do casamento americano de minha tia-avó com elas vivia também, e lembro-me de o ver imensamente gordo, e americano, até no nome que era Chester Merrill, por sinal apelido de família celebrado pelo simbolismo francês na personalidade de Stuart Merrill, "artiste raffiné", na opinião de René Lalou. As Senas Pereiras alugaram uma casa, à Estrela, na Rua Coelho da Rocha, 16-1'-Esquerdo. Em 1919, quando eu quase estava para nascer, uma senhora de origem açoriana, amiga de minha tia-avó, enviuvou na União Sul-Africana, onde o marido vivia comissionado como cônsul, desde 1895. Regressaria a Portugal com os filhos. E um filho do primeiro casamento, etnão homem de trinta anos que vivia em Lisboa, alugou para a mãe e os meios-irmãos o 1' andar-direito do n' 16 da Rua Coelho da Rocha, que vagara. Dois filhos partem a fazer os seus estudos na Inglaterra, onde ficarão, britanizados como já eram e britânicos como são hoje. Uma filha casa dentro em pouco. E D. Maria Madalena fica vivendo nessa casa com o filho do primeiro casamento, numa plena intimidade com a sua velha amiga. Minha tia-avó, como bostoniana honorária, era mais inglesa do que os ingleses, e a vantagem de estar próxima da igreja de São Jorge, sujeita ao bispo anglicano de Gibraltar, deve ter pesado na escolha da residência. Ela e a filha frequentavam conscienciosamente aquele protestantismo, e é no cemitério inglês de Lisboa, anexo àquela igreja, que minha tia-avó agora jaz, fazendo companhia a Fielding. Em 1925, D. Maria Madalena morreu. O filho continuou a viver naquela casa, servindo-se do telefone e de todas as pequenas atenções amigas daquelas duas velhotas que pareciam da mesma idade e só liam livros ingleses, como ninguém então, além do vizinho do lado e amigo íntimo, em Portugal lia, a não ser, talvez, a colónia britânica. Essa minha tia-avó, como a minha avó materna, foi uma das deusas tutelares da minha infância. Lembro-me de que, quando a visitava, as vezes encontrava lá aquele senhor suavemente simpático, muito bem vestido, que escondia no beiço de cima o riso discretamente casquinado.

Jorge de Sena


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