4
Não seria que os pais se dessem propriamente mal, pois Filemón tinha inteligência bastante para contemporizar com a casta desabrida de Nicolasa e, anos andando, a mulher substituiu rispidez e frieza pela equivalente resignação. Valia a Benito e aos irmãos que o casal usasse em frente deles uma fabricada delicadeza própria de quem resolvera viver a vida sem muito exigir, mas o maior sempre sofreu com a falta de ternura. Soube desde pequeno distinguir as noites de amor das outras em que o quarto dos pais boiava no óleo espesso da indiferença, e pela manhã cobria-os de beijos e pedia que fossem as melhores pessoas do mundo.
"Que queres tu com essa retrónica?", perguntava a mãe.
"Ser seu amigo. E a mãe de mim", dizia Benito, confundido de júbilo.
Da catequese vinha o anúncio de que o menino tinha uma parte de homem grande e uma parte de anjo. Quem tal garantia era o padre Oyarbide, um basco de Éibar afastado da diocese bilbaína por problemas de rebelião, que o bispo atribuía à bruma perpétua daquelas encostas confinantes com a França. Filemón costumava trazer-lhe da banda portuguesa do Minho uma aguardente de lavrador.
"Ressuscita os mortos", casquinava o afiador quando o padre ia pela terceira copa.
"Esta, Filemón, dava vida aos mártires de Istambul. Tu és um amigo certo e o teu filho Benito um serafim que nem sequer brinca com os moços da idade dele, quem sabe se por culpa tua. Vai à saúde dos dois."
Nas ausências do pai, e entre muitos afazeres, fora Benito incumbido de tratar da ovelha, a máxima riqueza familiar desde o passamento do tio Ruperto.
O Padeiro Velho ajudara a irmã nos primeiros tempos de casada, sem jamais dar a entender, nem em sonhos, que o fazia por um sentimento de culpa; tinha varrido o nome e a memória física do seu antigo amante, mandando abater os cães um a um pela mão de Dagoberto e atirando ele em pessoa a foicinha ao arroio Corbeiro, de uma vez que viajara aos Peares para encomendar uma muda de socas.
Coisa de três anos depois da morte matada do andaluz teve umas febres a princípio leves, que pareciam beliscar-lhe as orelhas pelo lado de dentro da cabeça, mas que em poucas semanas o enlouqueceram de dor e deram com ele na cama de folhelho onde a mãe o havia parido e que ainda conservava o oco do seu vulto autoritário. Morreu uma tarde de domingo, acordando meio Casdemundo com o último berro de homem desgraçadamente solteiro e inutilmente rico.
Dagoberto e Pejerto foram procurar o martelo, arrancaram os pregos da tábua mais fina junto à cómoda com espelho oval e repartiram entre si o que havia na lata escondida sob o soalho, e que era, consoante toda a vida tinham pensado, uma quantia insolente em &motilde;edas de ouro e prata, mais o cordão de duas voltas que pertencera à mãe e vários pares de arrecadas do tempo das avós moleiras.
Só então trataram de avisar Nicolasa. Esta ouviu-os de mãos nas ancas, franziu os lábios secos e desfechou:
"Que em paz descanse."
Evaporaram-se Dagoberto e Pejerto de Casdemundo, abandonando a casa com o forno do negócio. Nicolasa fez o funeral e esperou uma semana prudente, mas depois foi lá recolher o que ficara em móveis, roupa de cama e de vestir, talheres e cacharros; a trempe da lareira, carbonizada por um século de lume, deu-a à viúva Quián, sua vizinha e prima afastada, que vivia da caridade pública, dizendo-lhe também para servir-se da horta enquanto achasse o que semear; e trouxe por último uma colecção de livros roídos pela traça cujo título Filemón deletreou: eram as Cartas eruditas y curiosas do padre Benito Feijóo.
"Benito. Então quero que se guardem para o maiorzinho, para ler quando for grande", disse ela.
Filemón ligava acertadamente o nome do autor ao Paço de Casdemiro, ali perto, mas não soubera nunca de ninguém - talvez apenas o padre Oyarbide, tão sábio e tão expedito - que tivesse folheado aqueles tomos. O seu próximo cuidado foi carpinteirar um baú pequeno para Benito, onde depositou os livros. O filho, depois que cresceu, pôs lá também uma pedra brilhante catada no monte pela ovelha e que ele dizia que era do princípio do mundo.
Benito gostava entranhadamente da Parafusa, quase tanto como dos pais e dos irmãos, em especial a irmã Xesusa, que conversava a dormir. Manhã mal nascida já ele ia ao curral chegar à ovelha um braçado de erva e limpá-la e penteá-la para saírem para o monte. Andrés foi com ele durante algum tempo, mas entretanto Servando começou a reclamar companhia e os dois fizeram-se inseparáveis, e não apenas de jogos mas de aspecto, parecidos um com o outro como gémeos. O trabalho complicou- se quando um vizinho, a troco de um pouco de dinheiro, veio trazer duas cabras velhas que o moço do Prada disse que sim, que pastoreava se lhe obedecessem.
O luxo de Benito era uma caroça que tinha para os dias de chuva. Quando regressava do pasto pendurava-a no curral, mas fora do alcance da ovelha, sempre a cismar comê-la. Às vezes no monte a Parafusa e as cabras aproximavam-se de manso, encostavam o focinho à caroça e iam a morder o junco; Benito dava uma corrida e de longe gritava-lhes que não podia ser, experimentassem lá. Os animais faziam um trejeito faceto. Benito não precisava de gastar muitos ensalmos com o rebanho. Mesmo a Parafusa só se impacientava à hora de lhe tirarem o leite. O pai chegara-a ao carneiro dois anos, desistindo logo por ser de prenhez difícil e não sair de cima dos filhos enquanto estes não se enfastiassem dela.
Quer dizer que as idas ao monte eram mais uma questão de se entreter do que outra coisa. Benito, que passara a salto de moita pela escola, gostava não obstante de ler tudo o que apanhava à mão. Com excepção dos livros do tio Ruperto, prometidos para mais tarde, em casa o que havia era almanaques, um par de romances trágicos e alguns números soltos de jornais que o padre Oyarbide dava a Filemón à medida que os ia pondo de lado.
O romance mais trágico que Benito levou para o monte, e interrompeu tanta vez em lágrimas, dizia respeito a uma moça formosa e bem nascida, Dolores de seu nome, filha de um abastado comerciante da vila e corte, que se enamorara de um modesto empregado de balcão e a quem o pai probira terminantemente que assomasse à varanda da mansão onde viviam em Chamberí. O pretendente subia a calçada de manhã ao ir para a loja, e descia-a de tarde ao voltar, e os seus pensamentos húmidos como as ondas do oceano torciam-se em espiral até ao primeiro andar da casa, violando o recato das salas alfombradas de veludo, mobiladas com tudo o que havia de melhor. Dolores respondia soltando ais de uma pena incomportável. Quase no fim do romance Fadrique revelava a sua vera identidade: era filho de um conde colérico, tinha uma irmã freira em Manila e escrevia versos brancos à lua, às estrelas e a todas as forças cósmicas em geral, de que alguma gazeta já publicara as primícias; estas haviam-lhe valido a ira do progenitor e a consequente expulsão do solar em Colmenar de Oreja.
Benito, como a Parafusa e as cabras dessem mostras de interesse pela sua leitura, resumiu-lhes a trama do romance em duas sentenças:
"Pior cego é o que não quer ver. O amor tudo vence."
Leu La bella de Chamberí um mês de Março a fio, já o pai desandara para Portugal com a roda.
5
Margarida Inês, a ruiva de Miragaia, sustentara um caso com Filemón Prada ainda o afiador era solteiro. O marido soube que a afronta estava em preparação mas depois já não o esclareceram de mais nada porque era epiléptico e davam-lhe uns ataques; também andava armado, e o afiador vira-lhe a pistola no coldre, em apreço do que resistiu anos sem voltar àquele lugar do Porto.
Jazia o Mouga morto e enterrado e a viúva com um sobrinho em casa, soldado no Regimento de Penafiel, que à sexta-feira era certo a entrar pela prota e a despir-se peça e peça entre o bengaleiro e a cadeira de baloiço do quarto da tia. Margarida Inêss aguardava-o com a resolução da meia-idade, condimentada pela experiência de outros amantes, impaciente apenas quanto bastava para fantasiar o minuto em que o artilheiro a penetraria rangendo os dentes. "Tive um homem que me fez perder o juízo. Vinha de longe para estar comigo e tocava flauta", dizia ela lavando-o depois na selha com escrúpulos de enfermeira.
Ou então:
"Sempre gostei de forasteiros: limpam as botas no capacho e inventam histórias de princesas."
O sobrinho, que era bronco, uma ocasião interrompeu-a:
"Ora pois. Chamava-se Prada e amolava tesouras."
Ouvira o anedotário do tio cornudo no café e não se conteve que o não repetisse. Os olhos de Margarida Inês velaram-se com a gaze do desgosto.
Domingo o sobrinho soldado marchou para Penafiel. Ela foi-se pôr à janela a ver os barcos no rio. Tinha quarenta e sete anos, estava triste e bebia um cálice de licor de café. Ao longe, empurrando a roda, descortinou o galego.
Filemón bem quisera tirar informações sobre o Mouga e a malcasada. Era suposto que viveriam no mesmo sítio - mas viveria o Mouga, com tanta idade e tantos males de nervos? E como envelheceria Margarida Inês, agora que ele se esquecera dos traços do seu rosto?
Esquecera também o algeroz enfeitado pela trepadeira e a gaiola com periquitos azuis da senhora do rés-do-chão, quando ouviu que o chamavam pensou que era esta a incumbi-lo de algum conserto. Travou a roda e empinou-a.
"A porta está no trinco. Sobe", disse Margarida Inês.
Retirando para Casdemundo no Outono, o afiador desejou ter um genro com quem se desse bem e a quem revelasse este segredo para o transmitir um dia a Benito, pois nem nas conversas que os pais por descuido têm com os filhos sobre os seus amores passados ele se atreveria a contar que fora a Miragaia, bairro de perdição, com esperanças de rever a mulher do fiscal Mouga. Margarida Inês! Até o nome fidalgo prometia doces leviandades como as que Filemón veio a consentir ao amá-la em quartos esconsos de pensões onde se alojava por mais simpatia do que paga em metálico, e assim se morderam e rasgaram com as unhas enquanto o homem da Câmara não suspeitou que por qualquer razão a esposa lhe servia desde há semanas o mesmo guisado insosso de boi.
Subiu. Ela apresentava-se um tudo-nada mais forte mas usava ainda a mesma água de colónia que o estonteara no primeiro encontro, e o cabelo ruivo caía ardendo sobre os ombros. Desabotoou-lhe o vestido. Depois levantou-a do chão em peso e disse-lhe que o século ia acabar mas não o seu amor, comparável a um arco-íris com as sete cores em turbilhão.
Foram dias de arrebatamento. Quase não dormiam. Se Filemón resvalava para o sono, a viúva cavalgava-o uma e outra vez, frenética, jurando que a trocaria pela correnteza do rio se ousasse fugir-lhe. Não falavam das respectivas vidas. Margarida Inês ficou sem saber que o afiador casara e tinha geração; Filemón convenceu-se de que a a amiga sofrera a renúncia mais absoluta desde a morte do fiscal das obras, cuja fotografia surpreendera na sala, orlada de uma tarja negra.
"Estou bem. Herdei dois prédios no Campo Alegre, vivo das rendas e de uns papéis do falecido", expôs Margarida Inês.
"Eu, coitado, sempre de afiador", disse Filemón. "Em Setembro, se juntar cartos, vou para Ourense no comboio que sai por Valença."
Quinta-feira ao escurecer do sol, bebiam os dois um refresco, Margarida Inês murmurou o nome do sobrinho militar e Filemón viu-lhe os olhos mentirosos que nunca vira.
"Posso saber quem é?"
"Nada, nada", desconversou ela. "São umas pessoas de família que vêm amanhã ao Porto e pediram que eu as recebesse."
O afiador, calhava bem, tinha um compromisso inadiável em Ermesinde.
"Amanhã, Filemón?"
"Amanhã", disse ele.
A roda descansava na sala. Pegou-lhe ocm um puxão, aceitou o beijo de Margarida Inês edeu por seguro que tornaria outro ano, quando os milhanos descessem da serra em flor.
Pacheco, Fernando Assis, Trabalhos e Paixões de Benito
Prada, 2ª ed., ASA Literatura, Edições Asa, Lisboa
1993, pp. 21-29