Crónica de El-Rei D. João I de Boa Memória

Fernão Lopes


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132 - Ansiedade em Lisboa

Como foi sabudo pela cidade que a frota vinha, e do que as gentes por elo fizeram

Como se João Ramalho espediu do Mestre, pero fosse já alta noite, logo foi sabudo pela cidade como viera recado da frota que jazia já em Cascais, e que em outro dia havia de entrar e pelejar com a frota de Castela. E quando isto soou e foi sabudo per toda a cidade, de quando cuidado e esperança foram cheios os corações dos moradores dela, não é leve de dizer! Eles haviam grande prazer tendo esperança que, pelejando a sua frota com a de Castela, e a vencendo, que ficaria a cidade desabavada da parte do mar e poderiam haver mantimentos per ele, de que eram muito minguados; e vencida a frota, era per força gaançarem parte dela, por a qual razão viria tal perda aos castelãos que per ventura seria azo de el-rei de Castela descercar a cidade.

Doutra parte haviam temor e receio quando consiiravam como a frota de Castela era muito mais que a sua, e armada de muitas e boas gentes, e a grande ajuda que podia haver do arreal del-rei que tão perto tinha, se lhes cumprisse; e sendo a frota de Portugal vencida, a gram perda que todolos demais haveriam de padres e filhos, e maridos e irmãos e doutros seus parentes que pereceriam per morte.

Além desto, outro gram mal que lhes era prestes, convém a saber, a cidade posta em tanta pressa e angustura, que não somente de todo perderiam esperança de sua defensão, mas ainda, acontecendo-lhes tal cousa, de em breves dias caírem per força nas sanhosas mãos de tão mortais inimigos, pera usarem deles a seu livre talante.

E estes tão forçosos cuidados os fez logo levantar todos, assim homens como mulheres, que não puderam mais dormir. E falando das janelas uns aos outros, assim em estas cousas como na peleja do seguinte dia, começou de se gerar per toda a cidade um grande rumor e alvoroço de fala, o qual, durando per longo espaço, foi azo de cedo tangerem às matinas, mormente em noites pequenas. Em esto começaram as gentes de se ir às igrejas e mosteiros com candeias acesas nas mãos, fazendo dizer missas e outras devações, com grandes preces e muitas lágrimas.

Qual estado nem modo de viver era então isento deste cuidado? Certamente nenhum; porque não somente as leigas pessoas, mas ainda as religiosas, todas eram postas sô o grande manto de tal pensamento: como assim seja que do vencimento ou do seu contrairo cada uns esperavam de receber parte.

Qual seria o peito tão duro de piedade que não fosse amolentado com a maviosa compaixão, vendo as igrejas cheias de homens e de mulheres com os filhos nos braços, todos bradando a Deus que lhes acorresse e que ajudasse a casa de Portugal? Certas, nenhum, salvo se fosse não lindo português! E assim gastaram boa parte da noite, atá a manhã, uns em lágrimas e devotas orações, outros em se correger e fazer prestes contra os inimigos.

133 - Combate no Tejo

Como algumas naus de Portugal pelejaram com as de Castela, e foram tomadas três dos Portugueses e morto o bom de Rui Pereira

Mui pouco dormiu o Mestre aquela noite, nem as gentes da cidade, como dissemos. Mas como foi alta manhã, bem cedo, ouviu sua missa, e veio-se à ribeira com muitos que o aguardavam, pera armar os navios e barcas com que havia de acorrer à frota.

E em se metendo as gentes em eles, e o Mestre querendo entrar em uma nau, nasceu antre eles uma doce contenda: os da cidade diziam ao Mestre que se não metesse em nenhum navio, ca não era cousa pera consentir de se ele aventurar a tal perigo, e poer sua salvação em dúvida; mas que eles iriam pelejar com os inimigos, e que ele ficasse na cidade e não os desemparasse.

O Mestre disse que lhe tinha muito em serviço seu bom desejo e fiel bem querença, mas que em nenhuma guisa do mundo ele não ficaria na cidade, mas per sua pessoa seria presente na peleja, e que fiava em Deus qeu sairia dela com muita sua honra e de toda a cidade e do reino de Portugal. Eles, quando viram que se al não podia fazer, disseram que fizesse como sua mercê fosse.

E em fazendo-se esta assim, a frota del-rei de Castela, que eram quarenta naus e treze galés, como foi manhã, as naus todas meteram as vergas altas e forneceram-se de muitas e boas gentes; e porque a maré vazava e o vento era calmo, levavam as galés as naus grandes à toia; e as outras mais pequenas os batéis por davante; e foram-se todas a Restelo o Velho, que era dali uma pequena légua, contra onde a frota havia de vir, e puseram-se todas em ordem, com as proas pera a terra de Almada, e cada uma seu proiz em terra, por não se gurrarem com a maré; e assim estava ordenada sua batalha. E mais mandou el-rei gentes d'armas a cavalo acerca dos muros de Santo Agostinho e de São Vicente de Fora, por serem os da cidade ocupados em acudir àquela parte e não ajudarem os da frota desembargadamente.

Ora assim foi que, sendo pouco mais de hora de terça e enchendo já a maré, pareceu a frota de Portugal pela ponta de S. Gião, que são três léguas da cidade, e vinha ordenada desta guisa:

Vinham cinco naus diante, e na maior delas, que chamavam a Milheira, vinha Rui Pereira com sessenta homens d'armas e quarenta besteiros consigo; e em outra que chamavam a Estrela, Álvaro Peres de Castro; e na Farinheira, João Gomes da Silva; e na Sangrenta, Aires Gonçalves de Figueiredo; e em outra, Pêro Lourenço e Rui Lourenço de Távora; e assim nas outras seus capitães, assim como Gil Vasques e Lopo Vasques da Cunha, e João Rodrigues Pereira, e Lopo Dias de Castro, e Nuno Viegas, e Gonçalo Eanes do Vale, e outros; mas estas quatro nomeamos, porque estas sós aferraram. Depois destas cinco naus, vinham as galés todas juntas, pavesadas e apendoadas; e trás as galés, vinham doze naus. E a viração ventava tendente ao longo do rio, muito de viagem pera poder entrar.

Rui Pereira, varão bem notável, em que avondava maravilhoso e ardido coração, quando viu as naus de Castela estar cerradase em terra como dissemos, que ainda não deferiram, não sabendo a tenção porquê, veio-as demandar mui acerca, e as outras quatro naus com ele; e quando viu que os castelãos não fizeram querença contra eles, fez em outro bordo contra Almada.

Ora assim foi que ainda a manhã com sua claridade não alumiava bem a terra e já os muros e lugares altos eram cheios de homens e mulheres pera ver. Em este espaço do dia que atá aqui passou, não faziam homens e mulheres dês que amanheceu, senão correr pera os muros e lugares altos por terem lugar dhu vissem a peleja. Vinham-lhe à memoria seus padres e irmãos que ali traziam, e batendo nos peitos, ficados os joelhos em terra, rogavam a Deus chorando que os ajudasse; enduziam as madres os inocentes parvoos que tinham no colo que alçassem as mãos ao céu, ensinando-lhe como dissessem que prouguesse a Deus de ajudar os portugueses; outros faziam seus votos per desvairadas maneiras, chamando a preciosa Madre de Deus e o mártir S. Vicente, que fossem em sua ajuda.

Doutra parte o Mestre e toda a gente da cidade era ocupada em se fazer prestes pera entrar nos navios e barcas, que haviam de armar pera acorrer à sua frota, de guisa que não somente os homens mancebos mas as velhas cabeças cobertas de cãs se guarneciam de armas pera pelejar. Estonce entrou o Mestre em uma grande e fromosa nau, que fora das que tomaram com os panos dos genoveses que dissemos, e entraram com ele bem quatrocentos homens de armas; e porque a nau não era lastrada e a gente entrou mais do que devera, não podia reger como cumpria.

Nos outros navios se meteram tantas gentes, e isso mesmo nas barcas bandadas, que se queriam entornar com elas. Uma barcha em que ia Gonçalo Gonçalves Borjas, deferiu por fazer viagem pera Restelo, e o vento contrairo a levou per força caminho de Sacavém; e assim fez a outra em que ia Mem Rodrigues de Vasconcelos.

O Mestre quisera também fazer vela, e vendo a maré e vento contrairo, e que era muito pior deferir, saiu-se em terra e as gentes com ele; as barcas eram navios pequenos e não podiam empeecer aos grandes, mormente per tempo a elas contrairo, e desarmaram-se como os navios.

Ora fazendo a nau de Rui Pereira e as outras aquele bordo que dissemos contra Almada, e vindo as galés de Portugal todas a remos em escala em direito da frota dos inimigos, e vendo os castelãos que já as poderiam ter de julavento, desferiram todos assim como estavam pera ir sobre elas, dos quais o primeiro que fez vela foi uma grande nau que chamavam de João de Arena, que tinha um batel a meio masto fornecido de homens de armas. Rui Pereira, quando viu que as naus iam sobre as galés, com a viração que refrescava cada vez mais, temendo que lhe fariam dano, polas empachar, mais com avisamento que com sandia ousança, como alguns disseram, fez em outro bordo e veio aferrar com João de Arena; e aferraram com três de Portugal cinco de Castela e um carracão. E empacharam-se as guarnições de umas com as outras de guisa que todas iam em uma massa pelejando não mui devagar e bem sem piedade; e assim os lançou a maré e o vento contra as barrocas de Almada apar de Cacilhas.

E este aferramento que Rui Pereira fez com aquelas naus deu grande ajuda às galés de Portugal, porque as primeiras naus de Castela quiseram dar pelas galés, e enquanto Rui Pereira aferrou e se empachou com elas, passaram as galés que nenhuma das outras naus lhe pôde empeecer nem chegar. Mas, cruel fortuna, havendo grande espaço qeu durava a peleja, azou então sa morte daqueste modo: em pelejando Rui Pereira quanto um valente e ardido cavaleiro podia pelejar, alçou a cara do bacinete qeu não podia bem sofrer, e houve uma virotada pela testa de que, em pouco espaço lançou aquele fidalgo o espírito que tão cedo não devera fazer fim.

Oh, nobre e valente varão e verdadeiro português! De quantos então foste prasmado, dizendo que per tua sandia ardideza, podendo bem escusar a peleja e te ir em salvo como as outras naus, te ofereceste a tão mortal perigo! Porém não foi assim, mas como falava o comum povo, dizendo que assim como Jesus Cristo morrera por salvar o mundo todo, assim morrera Rui Pereira por azar salvação dos outros. De cuja morte o Meste e todolos da cidade tiveram grande sentido.

As doze naus que eram detrás vinham-se quanto podiam pera a cidade, e as de Castela todas trás elas, mas não lhe podiam fazer nojo po o muito vento que traziam. A nau em que vinha Aires Gonçalves desferrara quando começaram de se vencer, e seguiam-na, aferrando com ela, cinco galés, fazendo muito pola tomar, especialmente hu chamam a Cuba, por azo do vento qeu lhe acalmava, emparando-o a altura da terra; e aficavam-na tanto às bestas que toda a nau, e o treu e os aparelhos eram cheios de virotões, de guisa que era estranho de ver; e como se a nau houve fora da sombra daquele monte, saiu-se das galés com a maré e vento que trazia e escapou e foi-se em salvo.

Oh, que formosa cousa era de ver! em tão pouco espaço, através de um tão estreito rio, ver cinquenta e sete naus e trinta galés, todas armadas e bem corregidas, com desejo de empeecer umas às outras! Oh, que dia de tanto cuidado! Mormente dos que na presente peleja tinham gram parte de sua esperança, porque uma cousa julgava o desejo e otura ordenava a ventura!

As galés de Castela não puderam encalçar as de Portugal, nem elas não quiseram aferrar com elas, porque cada uma galé de Castela trazia trás si uma nau fornecida de gentes de armas pera lhe socorrer quando tal cousa cumprisse. Nem aferraram outras naus salvo as que dissemos, de que foram tomadas três dos portugueses e mortos alguns de uma parte e doutra, e os outros todos presos, e feridos boa parte deles. O Mestre andava pela ribeira armado, com muitos consigo, recebendo bem as gentes da frota, a qual se lançou jutno com terra dês as taracenas atá porta do Mar, e a de Castela se tornou pera Restelo.

                  Lopes, Fernão, História de uma Revolução, Primeira
                 Parte, "Crónica de El-Rei D. João I de Boa Memória",
         2. ed., Publicações Europa-América, Lisboa 1990, pp. 316-321


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