Como Álvaro Pais falou com o Mestre sobre a morte do conde João Fernandes, e do acordo em que ambos ficaram
Falou o conde ao Mestre de Avis, dizendo como Álvaro Pais havia de falar com ele algumas cousas de sua honra e serviço e que se fosse ver quando cavalgasse pela vila, porquanto per azo de sua doença não podia ir onde ele pousava.
O Mestre, por saber que era, não tardou muito de ir alá, e foi-lhe falar a sua pousada. E sendo ambos em lugar apartado, começou Álvaro Pais de razoar todo o que dissera ao conde de Barcelos, e a resposta de escusa que em ele achara, e que depois viera a cuidar que nenhum outro havia no reino que mais razões tivesse pera o fazer que ele:
- Primeiramente, disse Álvaro Pais, por vós serdes irmão del-rei, a que sua desonra mais deve doer que outro nenhum. A segunda, porque fostes per azo dele e da rainha preso e posto em tal perigo como todos sabem; e que porque não fosse senão por segurar vossa vida, que nunca há-de ser segura enquanto o conde João Fernandes for vivo, por isso somente o devíeis fazer, ca pois el-rei agora é morto usarão mais de sua maldade. E receando-se de vós, que bem sabem que disto deveis ter mor sentido que outra pessoa, sempre vos buscarão azo e caminho per hu vossa vida seja cedo finda. E pois que vingança deste feito a nenhum outro mais pertence que a vós, fazendo-o da guisa que vos eu digo, mostrareis em elo grande façanha, e muito de nembrar aos que depois vierem, em tanto que nem uma cousa de louvor antre os homens seria agora achada que fosse igual, nem parelha desta.
O Mestre, ouvindo suas boas e muitas razões com grande vontade que delo havia, bem outorgava de o fazer. Mas eram-lhe presentes tais e tão grandes dúvidas que todolos caminhos pera o poer em obra eram a ele escuros com grande empachos, especialmente dizendo o Mestre que quem se a tal feito houvesse de aventurar, mormente dentro na cidade, cumpria ter alguma ajuda do povo, por azo do cajom que se recrescer podia.
Álvaro Pais, com desejo que havia, mostrava ao Mestre serem todalas razões tão ligeiras pera o acabar como se fosse um pequeno feito. E quanto a ajuda do povo em que o Mestre falou muito, respondeu ele e disse que se o ele fazer quisesse, que ele lhe oferecia a cidade em sua ajuda, entendendo de o fazer assim.
O Mestre, cobiçoso de honra per sua ardente natureza e grande coração, movido pelos ditos dele determinou de o poer em obra.
O homem bom quando lhe ouviu dizer que todavia queria poer mão em tal feito, foi tão ledo que mais ser não pôde. E assim como chorando com prazer, se afastou dele um pouco olhando-o, e disse: - E é isto verdade, filho, senhor, que vós tão boa cousa como aquesta quereis fazer?
- Certamente, disse o Mestre, sim. E não o leixaria de acabar por cousa que avir pudesse!
Então se chegou a ele Álvaro Pais e beijou-o no rosto dizendo:
- Ora vejo eu filho, senhor, a diferença que há dos filhos dos reis aos outros homens!
Começaram estonce de falar muito como se melhor podia azar sua morte e per que guisa. E depois de grande espaço que em isto houveram falado, despediu-se o Mestre e foi-se pera sua pousada.
7 - O Andeiro volta a Lisboa, e ao poder
Como o conde João Fernandes veio ao saimento del-rei, e o Mestre foi ordenado por fronteiro em riba d'Odiana.
Por quanto dissemos do conde João Fernandes que na nãoite que se el- rei finou partiu mui trigoso pera seu condado, receando-se àquela hora de receber dano por o que feito tinha, bem podem alguns dizer neste ponto como foi depois ousado vir ao saimento onde foram juntos tantos muitos mais senhores e fidalgos dos que eram presentes quando el-rei morreu, pois se de alguns tanto receava? Ca muito poucos eram em Lisboa àquela sazão que se ele finou porque, como vieram das vodas com a rainha, cada uns se foram pera suas terras e alcaidarias, assim como Gonçalo Vasques de Azevedo pera Santarém dhu era alcaide e tinha seus bens, e assim outros muitos.
Onde sabei que asseim aconteceu que ele receando-se e com temor veio; e quando a rainha escreveu a todolos fidalgos que viessem ao saimento e chegou a carta ao conde João Fernandes, sua mulher lhe contradisse muito tal vinda, pedindo-lhe por mercê que a escusasse, ca o não entendia por seu proveito.
E ele, não curando de seu conselho, partiu pera Lisboa e chegou a Santarém, e foi pousar com Gonçalo Vasques de Azevedo, muito seu amigo segundo mostrança de fora, o qual o recebeu mui bem, e começou de o prasmar porque trazia preto e não burel como os outros, e fez-lho então vestir. O conde lhe perguntou se havia de ir ao saimento e ele respondeu que não, dando suas coloradas escusas; mas a verdade era que ele suspeitava o que depois aconteceu, e não queria ver em tal alvoroço por não saber o que se havia de seguir. Porém conselhou-lhe que não fosse lá.
O conde, pero se receasse de algumas pessoas, de nenhum se tanto temia em sua vontade como do Mestre de Avis irmão del-rei; mas este receio dele e dos outros não era porém privança de fala mas leda conversação e mostrança de bem querer.
E se alguma cousa se ele receava em vida del-rei D. Fernando, e muito mais quando ele morreu, agora ia já cobrando mais segura vontade, entendendo que cada um de tal feito perderia sentido por os muitos cuidados que se a todos recreciam, começando-se mundo novo. E com esta fouteza partiu estonce de Santarém sem crendo nenhum contrairo que lhe avir pudesse. Desi er fortuna lho fazia mais largo entender porque já tinha ordenado de o cedo oferecer à morte.
E chegou a Lisboa onde já achou muitos que vinham ao saimento. E, bem recebido de todos, foi em gram privança e gasalhado da rainha, desembargando com ela todolos desembargos do reino.
E como o saimento foi feito, entrou logo a rainha em conselho com os senhores, por falar nos trautos que antre os reis havia, os quais diziam que el-rei de Castela queria quebrar e juntava gentes pera entrar no reino.
Foi acordado per a rainha e per todolos que hi eram que o reino se defendesse, querendo el-rei de Castela vir a ele; e não lhe obedecessem em outra guisa salvo naquelas que nos trautos era conteúdo; e que, pois todos ali eram juntos, que ordenassem logo as frontarias e quais estivessem em elas e cada um com quantas lanças; e foi assim de feito que foram logo repartidas as comarcas, e ordenado ao Mestre as terras do Mestrado e certas vilas e castelos darredor, dando-lhe logo em escrito todolos que com ele haviam de guardar, e o desembargo do soldo para eles.
8 - O Mestre hesita
Como foi ordenada a morte do conde João Fernandes e como o Mestre partiu de Lisboa sem levando tenção de o matar
Buscadas as razões dos que livros fizeram desta história per testemunho daqueles que presentes foram, segundo todos pela mor parte dizem, o Mestre como teve acordado com Álvaro Pais de matar o conde João Fernandes, logo falou este segredo com o conde de Barcelos D. João Afonso e com Rui Pereira e outros, os quais lhe certificaram que seriam prestes com ele quando em elo quisesse poer mão.
E enquanto a rainha ordenava suas cousas sobre o regimento e percebimento do reino, em que o Mestre porém sempre estava, ia ele muitas vezes a casa de Álvaro Pais, algumas horas com o conde e outras adeparte, falar com ele sobre a morte do conde João Fernandes, e especialmente como se poderia haver a ajuda do povo por sua parte.
Álvaro Pais, muito talentoso de ver tal feito acabado, todavia lhe certificava que sim; não que ele descobrisse a nenhum tal segredo, mas entendia como era certo que a não boa vontade que as gentes tinham à rainha e ao conde os faria todos demover contra eles, como vissem lugar e tempo azado.
E acordaram que pera se todo melhor fazer, que tanto que o Mestre chegasse aos paços e começasse em esto de poer mão, que logo Gomes Freire seu pajem, em cima do cavalo em que andava, começasse de vir rijo pela vila, bradando atá a casa de Álvaro Pais, dizendo altas vozes que acorressem ao Mestre de Avis que o matavam. E que então sairia ele com os seus, em maneira de acorro, chamando quantos achasse pelas ruas, os quais se iriam com ele de boa mente como ouvissem tal apelido, e que desta guisa se juntaria toda a cidade em sua ajuda.
Falado desta maneira e acordado de se fazer assim, foi o Mestre desembargado de todo e dadas cartas quejendas cumpriam, e ele espedido da rainha pera partir.
Ora aqui desvairam alguns autores sobre a partida do Mestre, e dizem assim: uns contam que ele fingiu que se partia aquele dia, como de feito partiu, por o conde João Fernandes segurar mais dele, se algum receio tinha, e o Mestre tornar em outro dia e o achar mais despercebido e não atão acompanhado, e que Álvaro Pais se avisasse em tanto de sua parte. Outros afirmam sua partida per outro modo, e deste noz praz mais, dizendo que, não embargando que o Mestre ficasse com Álvaro Pais de poer em tal feito mão da guisa que ouvistes, que ele receava muito, depois, de o fazer, por estas seguintes razões:
A uma, porque tais hi houve com que ele falou, que se escusaram delo quando o houve de poer em obra, temendo-se da rainha, que tinha el-rei de Castela por sua parte, que lhe podia depois azar sua desonra e morte; salvo se foi Rui Pereira e alguns seus do Mestre, a que ele esto descobrira. Desi, duvidando muito o Mestre da ajuda do povo se não seguir como dizia Álvaro Pais, ou a tempo que não prestasse, era posto em gram pensamento; porém a principal sobre todas era o grande aguardamento de muitos e bons fidalgos que sempre acompanhavam com o conde João Fernandes, tal como Martim Gonçalves de Ataíde, e João Afonso Pimentel, e Pêro Rodrigues da Fonseca, e Fermand'Afonso de Miranda e outros, e bem trinta escudeiros seus de cote.
Assim que, cuidadas bem tais razões, não embargando seu ardido e boa vontade, foi-lhe mui duvidoso de o começar. E partiu da cidade depois de comer e foi dormir a Santo António, uma aldeia que são dhi três léguas, sem levando já nenhuma tenção de matar o conde.
Ele ali tornou a cuidar como esta cousa fora falada com tantos, e que per ventura estonce ou depois alguns, por cobrar graça da rainha e isso mesmo do conde João Fernandes, o podiam dizer a cada um deles; da qual cousa descoberta se seguia a ele e aos seus gram cajom e perda e per essa guisa a todolos que foram em tal conselho. E cuidando bem isto começou de crescer em ele um esforçado desejo com firme propósito de em outro dia matar o conde, poendo-se a qualquer ventura que aqueeecer pudesse.
E por tirar suspeita de sua tornada chamou logo Fernand'Álvares de Almeida, um cavaleiro da Ordem e vedor de sua casa e disse:
- Tornai-vos logo dormir a Lisboa e fazei-me de manhã prestes de jantar. E dizei à rainha que eu entendo lá de tornar porque me parece que não vou desembargado como cumpre.
E ele partiu logo e chegou alto serão à cidade; porém ainda falou à rainha e ao conde o porque vinha, e como em outro dia o Mestre havia de tornar porque lhe não parecia que não ia desmbargado como cumpria. A rainha e o conde responderam que tornasse muito em boa hora, que ele haveria desembargo como chegasse.
Lopes, Fernão, História de uma Revolução, Primeira
Parte, "Crónica de El-Rei D. João I de Boa Memória",
2.&, Publicações Europa-América, Lisboa 1990, pp. 94-99