Especialmente para todos os pt-netianos que cairam na piada que Carlos e eu tinhamos montado, embora não só para eles, copio e envio este belo poema em prosa de Danijel Dragojevic um dos primeiros líricos croatas contemporâneos, que há uma dezena de anos traduzi e publiquei, à guisa de uma pequena, mas bela compensação.

Edição Especial Comemorativa da Piada de Primeiro de Abril

Danijel Dragojevic

Portugal


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Antes de eu ter partido para aquela cidade, diziam-me é preciso ver isso, não se esqueça daquilo, só para isso vale a pena lá ir. Ofereciam-me guias, prospectos, vade-mécuns, as suas experiências, desejos e lembranças. Diziam-me sem sequer saberem que eu já no início acabara com eles e expulsara-os para a inóspita rua. Era provavelmente preciso que eu ficasse em casa e que acabasse de os saudar pelo seu desejo de me deitarem nas suas imagens e vistas comuns, nesse alcatrão recolhido de conversas e livros.

Dentro de alguns dias encontrei-me nessa cidade, mas sem qualquer intenção de seguir os rastos onde não há caça. Nos três dias, que lá fiquei, só mudava de lugares. Nada procurei, nenhures estive, nada vivi de valioso para se contar. Estive na companhia de tanto espaço quanto me pertence: tanto para que lhe possa fugir. Se de vez em quando algo me aparecia, uma frase ou cena não-desejada, mandava-as embora e fazia-as voltar para de onde tinham vindo, tudo além de uma longínqua almofada. Nalguns sítios que se consideram excepcionais, o maior prazer encontrei-o em nunca lá voltar. Foi oportuno olhar para si próprio da distância nesse espaço onde alguém me dá a absolvição de tudo.

E já então criou-se-me o desejo, se esta palavra não é demasiado forte, que só assim e de nenhuma outra maneira seria preciso visitar Portugal inteiro. Trazer para casa um mapa onde já não há cidades, rios, serras, homens, animais, plantas, memórias, passado, futuro. Como aqueles mapas da infância aonde tudo empalideceu de sol e vistas. Pendurar esse mapa na parede do quarto que depois de um certo tempo começa também a evaporar-se e desaparecer, assim como Portugal.

                                                ("Era do Carbono", 1981)

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