Quando o Padeiro Velho de Casdemundo teve a certeza de que Manolo Cabra lhe desfeitara a irmã, em dois segundos decidiu tudo. Nessa mesma noite matou-o de emboscada, arrastou o cadáver para o palheiro e foi acender o forno com umas vides que comprara para as empanadas da festa de San Bartolomé.
O irmão do meio encarregou-se de cortar a cabeça ao morto. O Padeiro Velho amanhou-o e depois chamuscou-o bem chamuscado. Às duas da manhã untou o Cabra de alto a baixo com o tempero, enfiando-lhe um espeto pelas nalgas. Às cinco estava assado.
"Carramba", disse o irmão do meio, que admirava todas as invenções do mais velho, "é à segoviana!"
"Mas não lhe pões o dente", cortou o outro.
Entretanto o mais novo, regressado já do Pereiro, aonde fora avisar o Padre Mestre, manifestou desejos de capar Manolo Cabra. O do meio olhou muito sério para o Padeiro Velho. Este cuspiu enojado e decretou:
"É tudo para os cães. E agora tragam-me lá a roupa do fiel defunto, que já não tem préstimo senão no inferno."
Se perguntassem ao Padeiro Velho o que mais queria naquele momento, teria respondido:
"Assar-lhe até a memória."
2
Nicolasa chourrou um mês seguido antes de se convencer que a sorte dos amores é efémera. Manolo Cabra, garantira o Padre Mestre, andava a monte e planeava fugir para o Brasil.
Este Elías Padre Mestre, primo dos Padeiros de Casdemundo, era funcionário menor na secretaria do tribunal de Ourense e aproximadamente o único de todos os Dorribos do município de Pereiro de Aguiar que sabia mais alguma coisa do que ler, escrever e contar, o que lhe valia uma aura inexpugnável de bacharel. A sua ciência formara-se em três anos de seminário, onde aprendera o castelhano da burocracia e a disciplina das putas ao fim-de-semana. Acabava de compor a figura jogando naipes como ninguém. Também fazia gala em usar as pílulas restauradoras do dr. Formiguera, cujo anúncio saía intermitentemente no Eco de Orense.
Pejerto acordou-o a meio do sono com a história do andaluz. O Padeiro Velho pedia conselho.
Entre os dois havia uma relação respeitosa a que o Padre Mestre sempre se mantivera fiel: sem serem da mesma criação entendiam-se bem. Elías tratava das contribuições do primo e assegurava os envios de farinha a tempo e horas para Casdemundo; Ruperto desenredava algum problema de dinheiro em que Elías andasse metido, geralmente quantias pequenas perdidas ao jogo.
O ex-seminarista vestiu-se e desceu à rua. Pejerto, um gigante de modos tímidos, torcia a boina, não atinando com a melhor maneira de relatar aquela estupenda vingança. Por fim experimentou:
"O primo havia de ver como foi."
"Como foi o quê?"
"O Ruperto. Matou o Cabra."
"Fala baixo.", disse Elías, que tinha deixado a amiga no quarto e era de seu natural diplomata.
A casa ficava num extremo do Pereiro, mas ele achou conveniente retirarem dali e começou a puxar o mensageiro pela manga. Havia mais à frente uma vinha da duquesa da Conquista, que lhe pareceu bom local para confessar Pejerto.
O gigante aninhou-se ao pé de uma videira e desatou nervosamente a língua, entaramelada de cansaço. Era então assim: o andaluz, um Manolo Cabra ganhão e músico, metera-se com Nicolasa, e o irmão Ruperto levara tão a mal que lhe tinha feito uma espera, derrubando-o a golpes de foicinha.
"Onde o enterraram vocês?", perguntou Elías.
"Não enterramos", disse Pejerto com a sua voz escura. "O Padeiro Velho ficou a assá-lo no forno."
Dagoberto, o do meio, trinchara a cabeça do ganhão e lançara-a na nitreira depois de a esmigalhar à pazada. A ele, o mais novo, haviam-no despachado para o Pereiro a falar com o primo. Fazia-se luz no entendimento do homem dos tribunais: Ruperto Dorribo queria ganhar tempo à justiça ou mesmo impedi-la de se pôr em marcha.
O Padre Mestre devia tandos favores ao Padeiro Velho que não se lembrava de nenhum em particular, mas eram pesos de balança na sua consciência. Teve uma súbita inspiração:
"Vais contar que ele anda fugido. Dizes ao teu irmão Ruperto que é o que consta aqui no Pereiro: o tipo sonha escapar-se para o Brasil, onte tem parentes. Mais logo apareço em Casdemundo. Quando o bicho estiver na mesa."
Pejerto carregou esta informação com o mesmo desvelo que empregaria em transportar um favo de colmeia. Ruperto e Dagoberto fizeram-no repetir as palavras do primo Elías, depois sentaram-se cada um no seu mocho e viram como os oito mastins da casa esburgavam os restos dos ossos de Manolo Cabra, amante atrevido. Pejerto continuava a pensar que teria sido bonito capar o morto.
À tarde chegou o Padre Mestre, com a gola da jaqueta besuntada de suor e creme para o cabelo e um Farias aceso na boca. Dagoberto foi buscar as taças mais o pichel.
"Quer o primo dizer", disse Ruperto, "que o malvado se safou sem a gente lhe dar umas boas porradas."
"Não tarda está a escrever de lá, só para se gabar que é esperto", confirmou o Padre Mestre.
Foi exactamente assim que o termo de Pereiro de Aguiar apagou da lembrança Manolo Cabra, fornicador de donzelas e ágil tocador de concertina. Por altura do Advento, devidamente instruído pelo Padre Mestre, um paisano respondia da cidade da Bahia de Todos os Santos a dar novas do foragido: sob suspeita de ser o receptador de uma quadrilha crioula que começara a operar na Rua Chile e imediações, prejudicando a praça comercial, fora detido, interrogado e intimado com uns croques a exilar-se para as terras de cacau, onde faziam lei os jagunços do coronel Ramos Amado. O seu rasto perdera-se em Auricídia.
Nicolasa, que já secara a torrente das lágrimas, tomou-se de brios e no Entrudo desposou um vizinho afiador que seis semanas depois partia para Portugal, deixando-a grávida de Benito.
3
Um ano contado sobre o desastre de Cuba, que também foi de Porto Rico e das Filipinas, a Espanha estava mais pequena e a Galiza mais pobre do que a maior parte das terras de Espanha. Em casa de Filemón Prada, cabouqueiro e afiador, ferviam-se intermináveis caldos de berças sem outro conduto além do toucinho, ou então pelavam-se batatas com um fio de azeite, porque só em dias muito selectos eram servidos comer carne de febra do porco matança.
Lá por Março ou Abril, quando o tempo escampava, Filemón limpava e oleava a roda, conferia a ferramenta, escolhia da arca uma muda de roupa, vestia o fato de trabalho de mahón azul escuro e despedia-se da mulher e dos filhos. Nicolasa só chorara da primeira viagem, com medo de se ver sozinha, mas Benito curou-a rapidamente: era um menino alegre como um cabritinho novo.
Depois de Benito vieram dois filhos mazombos, Andrés e Servando, e um outro, Luis, que morreu ao cabo de meses e o pai não chegou a conhecer por andar em Portugal no ofício. A satisfação voltaria com o nascimento de Xesusa, a Cacarela, tão faladora que quando aprendeu a juntar palavras foi para nunca mais se calar, nem de noite na cama. Benito sentira por esta irmã uma paixão instantânea; a rapazinha também gostava muito dele, pedindo-lhe colo sempre que o via baixar do monte à frente da ovelha. As melhores rodas eram construídas em Liñares por um Marcial Mezquida, dito o Carallós, que na sua juventude levara as maravilhas da arte de afiar tão longe como o México. Filemón tinha-se fornecido com o mestre dos mestres, dando diariamente as graças pelo acerto da escolha.
A alcunha de Mezquida vinha-lhe de ter um varicocelo, e sobre o varicocelo um eczema com uma aguadilha preta, que coçava desconsolado mesmo diante das pessoas mais piedosas. Contou ele a Filemón que era praga rogada por uma mulata caribenha com quem se liara de amores no Iucatão.
"Hás-de apodrecer do pito!", jurara a parda quando o galego lhe dizia adeus.
Filemón riu e riu e riu, porque entre os afiadores o pito era a flauta em que tocavam para convocar a freguesia.
As temporadas portuguesas davam bom dinheiro, embora para isso fosse política de afiador poupar o mais possível nos gastos diários, comendo tão frugalmente como na aldeia e dormindo de empréstimo onde os lavradores tivessem um cantinho sem muito esterco. Em algumas terras não era coisa fácil, mas Filemón chegou a traçar de memória um mapa dos lugares mais convenientes, no qual entravam a hospedaria do sr. António Celestino, em São João de Rei, que a bem dizer o recebia grátis, negociando em troca o conserto dos tachos da cozinha se os havia furados pelo azebre, e a casa da Sãozinha, no Requeixo, famosa por um bacalhau demolhado em água corrente cujo gosto o acompanhou até à hora da morte. A proprietária não cobrava um tostão.
"Sobrou de uns clientes que comeram antes do sr. Prada", dizia a rir- se.
No total de duas Primaveras e dois Verões, não mais, o afiador aprendeu a desemburrar-se em português de lei. Também não havia assim grande diferença para o galego, ensinou o Padre Mestre, letrado encartado, que sabia quase tanto do mundo como o Carallós e, quando queria, trocava o castrapo dos tribunais por um pipilar de senhorito que era autêntico regalo para o ouvido.
"Ah, mas o primo arromana como os do Porto!", admirou-se Filemón.
"Arromano um bocado de cada língua, que tudo vem de Cícero o Velho", volveu o Padre Mestre, e pôs-se a debitar a salve-rainha numa mistura de latim eclesiástico e geringonça de canteiro que o deixou aturdido.
No Porto o afiador tinha especial predilecção pelo bairro de Miragaia, beirando o Douro, um rio com outra importância que não era a do Minho, e na zona de Braga por aquela corda de aldeias que sobem à Póvoa de Lanhoso; sobretudo aqui havia uma gente de bom sentir com palheiros sempre limpos, cozinhas fartas e ferramenta a granel para dar um jeito no esmeril da roda e na bigórnia. A Sãozinha, uma paz de alma, logo que soube que o galego era pai de filhos passou a entregar-lhe todos os anos uma caixa embrulhada em papel de seda, com a recomendação de só a abrir na terra. Já Benito era um moço espigado e continuava a desejar o presente da senhora com arrepios de prazer. A Cacarela, vencida pela emoção, enrolava-se a falar, rasgava ela mesma o embrulho, que para tanto era a mais pequena, e urinava pelas pernas abaixo.
O espanto crescia quando Filemón tirava do caixão da roda um segundo embrulho, igualmente mandado pela sua cliente e destinado a Nicolasa: um lenço para a cabeça, um terço benzido, uma filigrana de Gondomar.
"Nome de Deus", gemia a irmã dos Padeiros de Casdemundo, "nome de Deus!".
Era das raras vezes em que sentia pelo marido outra coisa mais do que o distante afecto que o fazia tolerável. As vizinhas viam-na luzir as prendas e ficavam roxas de inveja.
Pacheco, Fernando Assis, Trabalhos e Paixões de Benito Prada,
2.a ed., ASA Literatura, Edições Asa, Lisboa 1993, pp. 9-20