No entanto o moço de loura penugem voltara à sua estranha mágoa. Não possuirmos um general com a sua espada, e um bispo com seu báculo...
- Para quê, meu caro senhor?
Ele atirou um gesto suave em que todos os seus anéis faiscaram:
- Para uma bomba de dinamite... Temos aqui um esplêndido ramalhete de flores de civilizacão, com um Grão-Duque no meio. Imagine uma bomba de dinamite, atirada da porta!... Que belo fim de ceia, num fim de século!
E como eu o considerava assombrado, ele, bebendo golos de Chateau-Yquem, declarou que hoje a única emocão, verdadeiramente fina, seria aniquilar a Civilizacão. Nem a ciência, nem as artes, nem o dinheiro, nem o amor, podiam já dar um gosto intenso e real às nossas almas saciadas. Todo o prazer que se extraíra de "criar", estava esgotado. Só restava, agora, o divino prazer de "destruir".
Desenrolou ainda outras enormidades, com um riso claro nos olhos claros. Mas eu não atendia o gentil pedante, colhido por outro cuidado - reparando que em torno, subitamente, todo o serviço estacara como no conto do Palácio Petrificado. E o prato agora devido era o peixe famoso da Dalmácia, o peixe de Sua Alteza, o peixe inspirador da festa" Jacinto, nervoso, esmagava entre os dedos uma flor. E todos os escudeiros sumidos!
Felizmente o Grão-Duque contava a história de uma caçada, nas coutadas de Sarvan, em que uma senhora, mulher de um banqueiro, saltara bruscamente do cavalo, num descampado, sem árvores. Ele e todos os caçadores pararam - e a galante senhora, lívida, com a amazona arregaçada, corre para trás de uma pedra... Mas nunca soubemos em que se ocupava a banqueira, nesse descampado, agachada atrás da pedra - porque justamente o mordomo apareceu, reluzente de suor, e balbucio uma confidência a Jacinto, que mordeu o beiço, trespassado. O Grão-Duque emudecera. Todos se entreolhavam, numa ansiedade alegre. Então o meu Príncipe, com paciência, com heroicidade, forçando palidamente o sorriso:
- Meus amigos, há uma desgraça...
Dornan pulou na cadeira: - Fogo?
Não, não era fogo. Fora o elevador dos pratos que inesperadamente, ao subir o peixe de Sua Alteza, se desarranjara, e não se movia, encalhado!
O Grão-Duque arremessou o guardanapo. Toda a sua polidez estalava como um esmalte mal posto:
- Essa é forte!... Pois um peixe que me deu tanto trabalho! Para que estamos nós aqui então a cear? Que estupidez! E porque o não trouxeram à mão, simplesmente? Encalhado... Quero ver! Onde é a copa?
E, furiosamente, investiu para a copa, conduzido pelo mordomo que tropeçava, vergava os ombros, ante esta esmagadora cólera de Príncipe. Jacinto seguiu, como uma sombra, levado na rajada de Sua Alteza. E eu não me contive, também me atirei para a copa, a contemplar o desastre, enquanto Dornan, batendo na coxa, clamava que se ceasse sem peixe!
O Grão-Duque lá estava, debruçado sobre o poço escuro do elevador, onde mergulhara uma vela que lhe avermelhava mais a face esbraseada. Espreitei, por sobre o seu ombro real. Em baixo, na treva, sobre uma larga prancha, o peixe precioso alvejava, deitado na travessa, ainda fumegando, entre rodelas de limão. Jacinto, branco como como a gravata, torturava desesperadamente a mola complicada do ascensor. Depois foi o Grão-Duque que, com os pulsos cabeludos, atirou um empuxão tremendo aos cabos em que ele rolava. Debalde! O aparelho enrijara numa inércia de bronze eterno.
Sedas roçagaram à entrada da copa. Era Madame de Oriol, e atrás Madame Verghane, com os olhos a faiscar, na curiosidade daquele lance em que o Príncipe soltara tanta paixão. Marizaç nosso íntimo, surgiu também, risonho, propondo uma descida ao poço com escadas. Depois foi o Psicólogo, que se abeirou, psicologou, atribuindo intenções sagazes ao peixe que assim se recusava. E a cada um o Grão-Duque, escarlate, mostrava com dedo trágico, no fundo da cova, o seu peixe! Todos afundavam a face, murmuravam: "la está"! Todelle, na sua precipitacão, quase se despenhou. O periquito descendente de Coligny batia as asas, ganindo: - "Que cheiro ele deita, que delícia!" Na copa atulhada os decotes das senhoras roçavam a farda dos lacaios. O velho caiado de pó-de-arroz meteu o pé num balde de gelo, com um verro ferino. E o Historiador dos Duques de Anju movia por cima de todos o seu nariz bicudo e triste.
De repente, Todelle teve uma ideia:
- É muito simples... É pescar o peixe!
O Grão-Duque bateu na coxa uma palmada triunfal. Está claro! Pescar o peixe! E no gozo daquela facécia, tão rara e tão nova, toda a sua cólera se sumira, de novo se tornara o Príncipe amável, de magnífica polidez, desejando que as senhoras se sentassem para assistir à pesca miraculosa! Ele mesmo seria o pescador! Nem se necessitava, para a divertida façanha, mais que uma bengala, uma guita e um gancho. Imediatamente Madame de Oriol, excitada, ofereceu um dos seus ganchos. Apinhados em volta dela, sentindo o seu perfume, o calor da sua pele, todos exaltámos a amorável dedicacão. E o Psicólogo proclamou que nunca se pescara com tão divino anzol!
Quando dois escudeiros estonteados voltaram, trazendo uma bengala e um cordel, já o Grão-Duque, radiante, vergara o gancho em anzol. Jacinto, com uma paciência lívida, erguia uma lâmpada sobre a escuridão do poço fundo. E os senhores mais graves, o Historiador, o director do Boulevard, o Conde de Trèves, o homem de cabeça à Van-Dyck, sorriam, amontoados à porta, num interesse reverente pela fantasia de Sua Alteza. Madame de Trèves, essa, examinava serenamente, com a sua nobre luneta, a instalação da copa. Só Dornan não se erguera da mesa, com os punhos cerrados sobre a toalha, o gordo pescoço encovado, no tédio sombrio de fera a quem arrancaram a posta.
No entanto Sua Alteza pescava com fervor! Mas debalde! O gancho, pouco agudo, sem presa, bamboleando na extremidade da guita frouxa, não fisgava.
- Oh, Jacinto, erga essa luz! - gritava ele, inchado e suado. - Mais!... Agora! Agora! É na guelra! Só na guelra é que o gancho o pode prender. Agora... Qual! Que diabo! Não vai!
Tirou a face do poço, refolegando e afrontado. Não era possível! Só carpinteiros, com alavancas!... E todos, ansiosamente, bradámos que se abandonasse o peixe!
O Príncipe, risonho, sacudindo as mãos, concordava que por fim "fora mais divertido pescá-lo do que comê-lo!" E o elegante bando refluiu sofregamente para a mesa, ao som de uma valsa de Strauss, que os tziganes arremessaram em arcadas de lânguido ardor. Só Madame de Trèves se demorou ainda, retendo o meu pobre Jacinto, para lhe assegurar quanto admirava o arranjo da sua copa... Oh perfeita! Que compreensão da vida, que fina inteligência do conforto!
Sua Alteza, encalmado pelo esforço, esvaziou poderosamente dois copos de Chateau-Lagrange. Todos o aclamavam como um pescador genial. E os escudeiros serviram o Barão de Pauillaç cordeiro das lezírias marinhas, que, preparado com ritos quase sagrados, toma este grande nome sonoro e entra no Nobiliário de França.
Eu comi com o apetite de um herói de Homero. Sobre o meu copo e o de Dornan o champanhe cintilou e jorrou ininterrompidamente como uma fonte de Inverno. Quando se serviram ortolans gelados, que se derretiam na boca, o divino poeta murmurou, para meu regalo, o seu soneto sublime a "Santa Clara". E como, do outro lado, o moço de penugem loura insistia pela destruicão do velho mundo, também concordei, e, sorvendo champanhe coalhado em sorvete, maldissemos o Século, a Civilizacão, todos os orgulhos da Ciência! Através das flores e das luzes, no entanto, eu seguia as ondas arfantes do vasto peito de Madame Verghane, que ria como uma bacante. E nem me apiedava de Jacinto que, com a doçura de S. Jacinto sobre o cepo, esperava o fim do seu martírio e da sua festa.
Ela findou. Ainda me recordo, às três horas da noite, o Grão-Duque na antecâmara, muito vermelho, mal firme nos pés pequeninos, sem acertar com as mangas da peliça que Jacinto e eu lhe ajudámos a enfiar - convidando o meu amigo, numa efusão carinhosa, a ir caçar às suas terras da Dalmácia...
- Devo ao meu Jacinto uma bela pesca, quero que ele me deva uma bela caçada!
E enquanto o acompanhávamos, entre as alas dos escudeiros, pela vasta escada onde o mordomo o precedia erguendo um candelabro de três lumes, Sua Alteza repisava, pegajoso:
- Uma bela caçada... E também vai Fernandes! Bom Fernandes, Zé Fernandes! Ceia superior, meu Jacinto! O Barão de Pauillaç divino... Creio que o devemos nomear Duque... O Senhor Duque de Pauillac! Mais um bocado da perna do Senhor Duque de Pauillac. Ah! Ah!... Não venham fora! Não se constipem!
E do fundo do coupé, ao rodar, ainda bradou:
- O Peixe, Jacinto, desencalha o peixe! Excelente, ao almoço, frio, com um molho verde!
Trepando cansadamente os degraus, numa moleza de champanhe e sono em que os olhos se me cerravam, murmurei para o meu Príncipe:
- Foi divertido, Jacinto! Sumptuosa mulher, a Verghane! Grande pena, o elevador...
E Jacinto, num som cavo que era bocejo e rugido:
- Uma maçada! E tudo falha!
Queirós, Eça de, As Cidades e as Serras, Introducão por
Carlos Reis, Biblioteca Ulisseia de Autores Portugueses,
Ulisseia, Lisboa, s.a., pp. 83-87