Crónica de El-Rei D. João I de Boa Memória

Fernão Lopes


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O pajem do Mestre, que estava à porta, como lhe disseram que fosse pela vila segundo já era percebido, começou de ir rijamente a galope em cima do cavalo em que estava, dizendo altas vozes, bradando pela rua:

- Matam o Mestre! Matam o Mestre nos paços da rainha! Acorrei ao Mestre que matam!

E assim chegou a casa de Álvaro Pais, que era dali grande espaço.

As gentes, que estou ouviam, saíam à rua ver que cousa era; e começondo falar uns com os outros, alvoroçavam-se nas vontades, e começavam de tomar armas, cada um como melhor e mais asinha podia.

Álvaro Pais, que estava prestes e armado, com uma coifa na cabeça segundo usança daquele tempo, cavalgou logo a pressa em cima de um cavalo que anos havia que não que não cavalgara, e todos seus aliados com, bradando a quaisquer que achava, dizendo:

- Acorramos ao Mestre, amigos, acorramos ao Mestre, ca filho é de el-rei D. Pedro!

E assim bradavam ele e o pajem, indo pela rua. Soaram as vozes do arruído pela cidade, ouvindo todos bradar que matavam o Mestre. E, assim como viúva que rei não tinha, e como se lhe este ficara em logo de marido, se moveram todos com mão armada correndo a pressa pera hu diziam que se esto fazia, por lhe darem a vida e escusar morte.

Álvaro Pais não quedava de ir pera ala, bradando a todosC,

- Acorramos ao Mestre, amigos, acorramos ao Mestre que o matam sem porquê!

A gente começou de se juntar a ele e era tanta que era estranha cousa de ver. Não cabiam pelas ruas principais e atravessavam lugares escusos, desejando cada um de ser o primeiro. E perguntando uns aos outros quem matava o Mestre, não minguava quem responder que o matava o conde João Fernandes per mandado da rainha.

E per vontade de Deus todos feitos de um coracão com talente de o vingar, como foram às portas do paço, que eram já çarradas ante que chegassem, com espantosas palavras começaram de dizer:

- Hu matam o Mestre? Que é do Mestre? Quem çarrou estas portas?!...

Ali eram ouvidos brados de desvairadas maneiras. Tais hi havia que certificavam que o Mestre era morto, pois as portas estavam çarradas, dizendo que as britassem pera entrar dentro e veriam que era do Mestre ou que cousa era aquela.

Deles bradavam por lenha e que viesse lume pera poerem fogo aos paços, e queimar o treedor e a aleivosa; outros se aficavam pedindo escadas pera subir acima, pera verem que era do Mestre. E em todo isto era o arrído atão grande que se não entendiam uns com os outros nem determinavam nenhuma cousa. E não somente era isto â porta dos paços, mas ainda arredor deles per hu homens e mulheres podiam estar. Umas vinham com feixes de lenha, outras traziam carqueja pera acender o fogo cuidando queimar o muro dos paços com ela, dizendo muitos dõestos contra a rainha.

De cima não minguava quem bradar que o Mestre era vivo e o conde João Fernandes morto. Mas isto não queria nenhum crer, dizendo:

- Pois se vivo é, mostrai-no-lo e vê-lo-emos!

Então os do Mestre, vendo tão grande alvoroço como este, e que cada vez se acendia mais, disseram que fosse sua mercê de se mostrar àquelas gentes, doutra guisa poderiam quebrar as portas ou lhe poer o fogo, e entrando assim dentro per força, não lhe poderiam depois tolher de fazer o que quisessem.

Ali se mostrou o Mestre a uma grande janela que vinha sobre a rua onde estava Álvaro Pais e a mais força de gente, e disse:

- Amigos: apacificai-vos, ca eu vivo e são sou, a Deus graças!

E tanta era a trovacão deles, e assim tinham já em crença que o Mestre era morto, que tais havia hi que aperfiavam que não era aquele; porém, conhecendo-o todos claramente, houveram gram prazer quando o viram, e diziam uns contra os outros:

- Oh, que mal fez! pois que matou o treedor do conde, que não matou logo e a aleivosa com ele! Credes em Deus ainda lhe há de vir algum mal per ela! Olhai e vede que maldade tão grande: mandaram-no chamar onde ia já de seu caminho, pera o matarem aqui per treicão. Oh, aleivosa! Já nos matou um senhor e agora nos queria matar outro. Leixai-a, ca ainda há mal d'acabar por estas cousas que faz!

E sem dúvida, se eles entraram dentro, não se escusara a rainha de morte, e fora maravilha quantos eram da sua parte e do conde poderem escapar.

O Mestre estava à janela, e todos olhavam contra ele dizendo:

- Oh, senhor, como vos quiseram matar per treicão! Bento seja Deus que vos guardou desse treedor! Vinde-vos, dai ao demo esses paços, não sejais lá mais!

E em dizendo esto muitos choravam com prazer de o ver vivo.

Vendo ele estonce que nenhuma dúvida tinha em sua segurança, desceu afundo e cavalgou com os seus, acompanhado de todolos outros que era maravilha de ver; os quais, mui ledos arredor dele, bradavam dizendo:

- Que nos mandais fazer, senhor? Que quereis que façamos?

E ele lhe respondia, adur podendo ser ouvido, que lho gradecia muito, mas que por estonce não havia deles mais mester.

E assim encaminhou pera os paços do Almirante hu pousava o conde D. João Afonso, irmão da rainha, com que havia de comer. As donas da cidade, pela rua per hu ele ia saíam todas às janelas com prazer dizendo altas vozes:

- Mantenha-vos Deus, senhor! Bento seja Deus que vos guardou de tamanha treicão qual vos tinham bastecida!

Ca nenhum, por estonce, podia outra cousa cuidar.

E indo assim atá entrada do Rossio e o conde vinha com todolos seus e outros bons da cidade que o aguardavam, assim como Afonso Eanes Nogueira, e Martim Afonso Valente, e Estavam Vasques Filipe, e Álvaro do Rego e outros fidalgos; e quando viu o Mestre ir daquela guisa, foi-o abraçar com prazer e disse:

- Mantenha-vos Deus, senhor! Sei que nos tirastes de grande cuidado, mas vós merecíeis esta honra melhor que nós. Andai, vamos logo comer.

E assim foram pera os paços hu pousava o conde.

E estando eles por se assentar à mesa, disseram ao Mestre como os da cidade queriam matar o bispo, e que faria bem de lhe ir acorrer; e o Mestre quisera aló ir.

Disse estonce o conde:

- Não cureis disso, senhor. Se o matarem, quer matem quer não, ca posto que ele moira, não minguará outro bispo português que vos sirva melhor que ele!

Ao dito do conde cessou o Mestre de sua boa vontade, e o bispo foi morto desta guisa que se segue.

              Lopes, Fernão, História de uma Revolucão, Primeira Parte,
                   "Crónica de El-Rei D. João I de Boa Memória", 2..a,
                 Publicações Europa-América, Lisboa 1990, pp. 104-107.


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